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SIDERÓPOLIS AINDA ME LEMBRO

Um espaço para as pessoas da Terrinha Boa, que poderão  contribuir, a exemplo do amigo Mano Savi, com algumas histórias. Com certeza muita gente tem boas recordações para contar.

LEITE

Lembro-me que na infância, cedinho, logo que o dia amanhecia, eu saia de casa com um litro vazio daqueles de “Vermute Uru”, dentro de uma sacola de pano, caminhando pelas ruas do Rio Fiorita para buscar leite que meu pai pagava mensalmente aos mais diversos fornecedores. Falo diversos, porque frequentemente o fornecedor era substituído, afinal, o terneiro crescia, virava bezerro e a vaca não dava mais leite. Prevendo o fato, minha mãe já esquematizava com alguém que tivesse uma vaca prenha, e assim garantia o fornecimento de leite para a prole que não era pequena, e o leite tinha função fundamental na nossa alimentação.

Quantas vezes quando criança comi polenta com leite.

Geladeira nós não tínhamos, mas a criatividade de minha mãe era muito grande. Para o leite não azedar de um dia para o outro, ela colocava a leiteira que era de metal esmaltado, já surrada pelo tempo, na varanda, coberta com um prato, e sobre esse um tijolo, assim o sereno da madrugada conservava o leite até o dia seguinte, fazendo o papel da geladeira.

E aí você me pergunta:

– Para que o tijolo sobre o prato?

Para que os gatos não derrubassem o prato e tomassem nosso leite, ora bolas!

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

BUZINA

Quem não lembra do Buzina?

Buzina, era a alcunha do Luiz, morava nos fundos da Rua 12, perto da “Duzentas”.

Naqueles tempos ele morava sozinho, isolado da comunidade, numa casinha simples e humilde sem água e sem energia elétrica, no meio dos morros feitos pelas maquinas da Companhia Siderúrgica. Só conheceu a casinha dele quem costumava brincar na “Duzentas”, ficava quase escondida, o acesso era um pouco difícil.

Ele era muito gente boa, não tinha emprego fixo, viva de uns “bicos”, que fazia, era um serviço aqui outro acolá, mas sempre com muita honestidade. Estava sempre disposto a qualquer serviço para o qual era requisitado, principalmente o de jardinagem.

Por ser um cara que vivia um pouco isolado, muitas vezes era discriminado. Quantas ocorrências atípicas que se passaram no Rio Fiorita da época foram imputadas a ele, que nada tinha a ver com o caso.

Era fácil jogar a culpa em pessoas indefesas.

Não faz muito tempo ouvi dizer que mora em Içara e está muito bem de vida.

Força Buzina, vamos em frente.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

CAMPINHO

Falar do Rio Fiorita dos anos 60 e não falar do Guilherme, é como se não estivesse falando do Rio Fiorita.

O Guilherme era gente boa, destemido e respeitado, não aturava desaforo.

Por ter um pequeno problema no pé, o pessoal chamava-o de “mula manca”, mas nunca na sua presença, porque a reação era instantânea.

Esse problema não o atrapalhava em nada tanto que era um exímio ciclista como também futebolista. Quantas vezes ele montado em sua bike surgia do nada nas festas da Gruta de Treviso, festa de São Vitor e muitas outras festas nas comunidades espalhadas pelo interior de Siderópolis da época. Era excelente atleta, bom de bola, tinha um chute potente que amedrontava qualquer goleiro.

Dos campos de “peladas” no Rio Fiorita, os dois mais famosos sempre foram o “Sobe-e-Desce” próximo ao escritório da CSN, no lado da Geminada, e o “Serro da Vaca Magra” nas margens direita do Rio Fiorita, próximo ao encontro da Rua do Comércio com a Rua 11. O terceiro campo de “peladas”, era o campo do Guilherme, que ficava nos resquícios de uma antiga pedreira exatamente em frente ao Clube União Mineira. Para se fazer um “futebolzinho” nesse campo, que não tinha nada de grama, chamávamos de Pasto de Bode, porque tinha apenas umas touças de capim incrustadas na areia remanescente da abandonada pedreira, só com autorização do Guilherme. Às vezes uns mais afoitos arriscavam uma “peladinha” no Campo do Guilherme, mas se ele ouvisse o barulho da bola, no mesmo instante aparecia, e impondo a voz  perguntava:

– Quem foi que autorizou vocês a jogarem no meu campo?

O silencio era fúnebre, mas dependendo da clientela ele perdoava e deixava-os continuar jogando, desde que arranjasse um lugar para ele.

Se os atletas do momento não eram do seu agrado, tinham que pôr a bola debaixo do braço e partir para outro local, geralmente no “campinho” que ficava em frente a Assembleia de Deus, na época conhecida como Igreja dos Evangelistas.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

BALAUSTRES

O tempo passou e eu voltei ao meu Rio Fiorita.

Sempre que lá volto, visito os lugares que me trazem boas lembranças, e são muitos esses lugares.

A visita à Capela de Santa Barbara, imponente sobre a colina, é de lei, nem que seja apenas para uma olhadinha externa, essa visita sempre faço.

Naquele dia a capela estava aberta, entrei, observei os detalhes, as imagens, em seguida a arquitetura e neste instante senti um vazio, faltava alguma coisa e isso me incomodou um pouco.

O que estava faltando?

Os balaústres que faziam a divisória que chamávamos de “cerquinha” a qual dividia o altar, quase exclusivo dos padres e coroinhas, da área reservada à comunidade. Na época eu nem sabia que balaústres era o nome daqueles “barrotes de madeira torneados”, que faziam a divisória.

Um degrau abaixo da linha dos balaústres, encontrava-se o genuflexório, ou, num português mais acessível, o estrado onde a comunidade se ajoelhava para a Comunhão, sempre após uma hora de jejum, no mínimo.

Os balaústres se foram, a Capela ficou maior, e a saudade mais ainda.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.                                                                                                                      Mano Savi

ARQUINHO

A gente pronunciava “Duzentas”, essa era a denominação de uma máquina de escavação que ficou abandonada na mina, nos fundos da rua 12.

O pessoal comentava que a Companhia abandonou a máquina na mina porque estava dando muita manutenção, quase todo dia quebrava uma peça.

Entre os mineiros, depois de beber umas e outras, era comum comenta que foi uma praga de uma Padre, porque a máquina trabalhava direto, não respeitando sábados nem domingos. Dizem que num certo domingo a máquina atrapalhou uma procissão pelas ruas do Fiorita, e deu no que deu.

Na máquina abandonada a rapaziada do Rio Fiorita brincava de “Cow Boy”, que chamávamos de “camõe”, se escondendo em tudo quanto é canto, e também no porão que era apinhado de morcegos. Tinha também aquele pessoal que ia na máquina com chaves nos bolsos, para afrouxar parafusos e se apropriar de peças, geralmente arruelas. Tinham umas arruelas gigante que o pessoal usava para brincar de “arquinho de moda”, aquela saudosa brincadeira, na qual a gente empurrava uma rodinha (a famosa arruela tirada da “duzentas”, as vezes uma roda da chapa do fogão a lenha, ou qualquer outra roda improvisada), empurrada com um arame dobrado em forma de “U” espetado numa rama de aipim.

– Alguém lembra desse brinquedo?

Fazia parte da diversão da gurizada no Rio Fiorita.

Eu quando criança, brincando de “arquinho de moda”, fui atropelado pelo Ailton, filho do Seu Edmundo, levei três pontos no rosto.

Com o passar do tempo, a Companhia vendeu a “Duzentas” como sucata para uma Fundição de Joinville, a qual encaminhou para Siderópolis dois funcionários para desmontar o que ainda restava. Ainda guardo na lembrança, era o Seu Rosa um baixinho e o Seu Raul alemão alto e de vasto bigode, “a la sargento Garcia”.

Os dois tinham o costume de no final da tarde, após mais um dia de labuta, irem na venda dos Savi beber umas biritas. Eu muitas vezes abasteci os “martelinhos” e os “lisos” com cachaça purinha, agrião, losna, limão, mastruço, porém nunca fiquei sabendo se era vicio, ou se servia de relaxante muscular após um árduo dia de trabalho.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

Mano Savi

MOTOCICLETA

Naquele tempo chamávamos de “motor”. Meu pai e meu tio tinham um em sociedade. Era de fabricação Tcheca, marca JAWA, ano 1951, cor bordô, um dos “motores” mais conhecidos em Siderópolis, juntamente com o do Seu Alcino, que tinha as mesmas características, inclusive a mesma cor.

Muitas vezes meu pai colocava uma saca com 60 Kg de milho sobre o tanque de gasolina, ligava o motor, pois eu franzino nos meus 13 ou 14 anos de idade, nem se quer tinha forças suficiente para acionar o pedal de arranque, e pedia para que eu levasse a saca de milho até a atafona do Sr. Giocondo, pra lá de Treviso, no caminho de quem vai para Forquilha. Geralmente dois dias depois eu regressava para buscar a farinha. Só ia se fosse tempo firme, pois se tivesse tempo nublado corria o risco de trazer a “polenta pronta”. A carga voltava com uns 40 Kg, pois tinha a “quebra” e também o percentual referente ao pagamento do serviço de moagem, que era feito em farinha.

Lembrando que eu não tinha forças o suficiente para acionar o pedal de arranque, o senhor Giocondo ligava o motor, e eu cabelos ao vento, pois na época não era costume, muito menos obrigatório usar capacete, voltava para casa feliz da vida por mais uma etapa ganha.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

Mano Savi

DENTES

Dentista também era artigo de luxo naqueles tempos. O pessoal da CSN tinha dentistas conveniados com o Sindicato dos Mineiros. No nosso caso, a salvação era o Sr. João Sonego em Treviso. Eu deveria ter perto de 7 anos, estava na idade de trocar os dentes, sair da dentição decídua, naqueles tempos conhecidos como, “dentes de leite”, para a dentição definitiva. O dentista do Sindicato costumava dar uma “fuginha” no meio da tarde para fazer um lanche na Venda dos Savi. Numa dessas, meu saudoso Pai, Seu Gialdino, mais conhecido por Seu Galdino, falou com ele sobre meus dentes que estavam moles e em breve cairiam. Ele gentilmente deu uma olhadinha superficial e pediu para que eu fosse ao consultório no final do expediente. Fui lá e voltei para casa com cinco dentes embrulhados num guardanapo, e consequentemente “uma fresta” no sorriso. Com uma só anestesia extraiu 5 dentinhos. A noite veio, e com ela a febre, chegou perto dos 40 ºC. Naquela semana não foi possível comer minestra com queijo e salame, foi capilé bem gelado com balachão Araré, alternando com bolacha Maria, até o dia que baixou a febre e cicatrizou a gengiva. No dia seguinte a efeméride, quando o dentista foi fazer o tradicional lanche da tarde, meu Pai, perguntou:

– Quanto foi o serviço?

– Não foi nada não.

Meu Pai então deu-lhe de presente duas “pernas de salame” e uma “roda de queijo colonial”.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

Mano Savi

ENCICLOPÉDIA

Nos anos de 1960 minha geração cursava o primário no Grupo Escolar Dr. Tullo Cavallazzi no Rio Fiorita. Todos respeitavam as professoras, afinal elas eram autoridades. Tempos bons aqueles.

Lembro-me que num belo dia chegou um senhor, esbelto, bem vestido, cabelos repletos de brilhantina, era o vendedor de enciclopédias, que em sua passada pelo Rio Fiorita passou a ser mais respeitado que as professoras.

Foi-nos apresentado pela diretora, e em seguida fez um discurso sobre as grandes vantagens de se ter uma enciclopédia em casa, distribuiu panfletos para levarmos aos pais, na intenção de convencê-los a comprar uma daquelas coloridas coleções de livros.

Durante sua estada no Rio Fiorita, foi tratado como autoridade máxima, afinal tinha vindo da capital, vestia-se com calça vincada, e camisa manga longa sob um impecável paletó, e isso impunha respeito.

Anos mais tarde quando fui para Florianópolis cursar Engenharia, numa de minhas costumeiras passagens pela Rua Felipe Shmitd, mais precisamente no Bar Senadinho, onde os aposentados costumam jogar conversa fora, carteado e dominó, sabem quem estava lá, mais uma vez bem vestido, porém sem brilhantina nos fios capilares? Aquele que um dia, no Grupo Escolar Dr. Tullo Cavallazzi foi mais respeitado que as professoras, o vendedor de enciclopédias. Era um ser humano igual a todos nós.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

Mano Savi

RIM

O inverno ia se aproximando, e com ele chegava a época de matar porcos. Abater os animais, destrinchá-lo, derreter o toicinho para fazer banha, e por tabela fazer o saboroso e saudoso torresmo dos Savi. Também se fazia salame para comer com minestra, e salgava-se alguns nacos de toicinhos para conservá-los, os quais seriam degustados em tempos futuros. Hoje são conhecidos por “bacon”.

A gente pulava da cama cedo, lá pelas 05H00 da matina, meu pai colocava fogo sob o tacho para ferver a água enquanto os animais eram abatidos.

Meu saudoso pai era especialista no abate, e nas demais etapas de destrinchamento. A gurizada, entre eles eu, picavam as tiras de toicinho em pequenos cubos que eram levados ao tacho para derreter a banha e fazer o torresmo. O cerimonial era realizado com muito cuidado para não passar do ponto, e exigia que fosse mexido constantemente com uma pá de madeira, semelhante a um remo. Nós sorrateiramente amarrávamos rim suíno com cordão de amarrar salame e jogávamos no interior do tacho junto ao toicinho que derretia. O cordão tinha a finalidade de facilitar a “pesca” tendo em vista que o rim cozia muito rápido na banha que borbulhava, evitando que se perdesse tempo procurando-o no meio da banha. Quando o rim estava cozido a gente fazia uma grande festa, cortando-o em fatias e temperando-o com limão para então saboreá-lo.

O tempo passou e quando estava cursando o científico no Colégio Marista de Criciúma, numa aula de biologia fiquei sabendo a função do rim. Quase vomitei na sala de aula. Nunca mais quis saber de comer rim.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

Mano Savi

GAITINHA

O natal se aproximava e chegava a hora de fazer o pedido ao papai Noel.

Naquele distante ano, ainda cursava o primário, pedi de presente uma gaitinha de boca.

O natal chegou, e a gaitinha também. Eu muito feliz saía pelas ruas do Rio Fiorita soprando a gaitinha que respondia com o tradicional o “lari-lará, lari-lará”, mesmo sem ter a mínima noção do era uma nota musical. Eu adorava soprar minha gaitinha de boca. A felicidade era grande. Independente da ignorância em teoria musical, a gaitinha quando não estava sendo soprada lá pela Rua do Comércio, Rua 12, Rua 14 e redondezas, estava devidamente guardada no bolso da calça, calça curta, diga-se de passagem.

Um belo dia quando fui fazer minhas necessidades fisiológicas, para não dizer que ia “cagar”, e naquele tempo não tínhamos banheiro com vaso sanitário e tudo mais, era a tradicional patente de rua, aquela famosa casinha localizada nos fundos do terreno, a qual no interior tinha um assento com um enorme furo, e lá em baixo um buraco que fazia o papel de latrina, onde pela ação da gravidade e mais um esforçozinho se destinavam a fezes. Nesse dia cheguei na patente razoavelmente apurado, desci a calça, e na tradicional “acocorada” a gaitinha que estava no bolso, deslizou diretamente ao buraco da patente. Que tristeza. De inicio pensei em fazer um “pescador com arame”, para resgatá-la, mas o odor que o ambiente exalava me fez desistir da ideia.

Nunca mais no Rio Fiorita alguém ouviu o “lari-lara, lari-lará” da minha gaitinha.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

Mano Savi

SONHOS 

Na tenra infância, nós do Fiorita só nos juntávamos ao pessoal da Geminada na escola ou nos jogos do Itaúna Atlético Clube. No carnaval, enquanto o pessoal da Geminada curtia o Recreio do Trabalhador, nós do Fiorita íamos ao Clube União Mineira, que o pessoal dizia ser o Clube dos Pretos. Na verdade, era administrado pelos nossos irmãos da etnia negra, mas para nós do Fiorita era o melhor Clube do Mundo. Um local onde não havia discriminação, ali todos se divertiam, independentemente de cor de pele, e classe social, o Clube mais eclético que eu conheci. Nele se promoviam muitas festas, mas o carnaval era o auge das comemorações, muito agito, muita gente alegre. Aquelas saudosas marchinhas não deixavam ninguém parado. “O cordão do puxa saco, cada vez aumentava mais”. A festa no interior do Clube era muito animada, porém lá fora havia uma atração muito especial. Era o sonho. O sonho do Paquelim, que com um cesto pendurado no braço vendia sonhos, e era o sonho de muita gente degustar aqueles sonhos, recheados com goiabada. No Rio Fiorita aquele sonho sempre era comercializado nos eventos promovidos pelo Clube União Mineira.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

Mano Savi 

FURUNCULO

O ambulatório da CSN era exclusivo dos servidores da Companhia Siderúrgica Nacional e seus familiares. No meu caso, meu pai não fazia parte do quadro de funcionários da CSN, então a gente só ia lá em duas ocasiões. Uma nas campanhas de vacina, quando a gente se deslocava em fila indiana, do Grupo Escolar Dr. Tullo Cavallazzi, até o ambulatório e vice-versa, e outra quando íamos levar rãs ao Dr. Girão que adorava degustá-las. As rãs nós abatíamos com uma paulada na cabeça, no ranário natural formado naquele banhado que havia em frente a Assembléia de Deus do Rio Fiorita, que na época a gente chamava de Igreja dos Evangelistas. Deixa estar que num belo dia amanheci com um furúnculo e dos grandes, na axila direita, ou seja, no sovaco. Naquele tempo se dizia que era “furuncu”. Aquilo estava me azucrinado, então ao meio dia fui até a casa do saudoso Sr. João Cascais e mostrei o estrago. Ele não vacilou, no mesmo instante me levou ao ambulatório, aplicou uma anestesia local, e passou o bisturi. Com o capricho e o carinho de um pai, fazendo o uso de um copinho recolhia o pus que jorrava forte, enquanto eu com trauma de agulha e bisturi, olhava para as paredes tentando me descontrair. Procedimento realizado, perguntei quanto foi o serviço, e ele apenas me mostrou o saldo do que estava me incomodando na axila, um copo quase cheio de pus, dizendo deixe para lá.

Foi um muito obrigado, e tudo bem.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

Mano Savi

 

BALAUSTRES

O tempo passou e eu voltei ao meu Rio Fiorita.

Sempre que lá volto, visito os lugares que me trazem boas lembranças, e são muitos esses lugares.

A visita à Capela de Santa Barbara, imponente sobre a colina, é de lei, nem que seja apenas para uma olhadinha externa, essa visita sempre faço.

Naquele dia a capela estava aberta, entrei, observei os detalhes, as imagens, em seguida a arquitetura e neste instante senti um vazio, faltava alguma coisa e isso me incomodou um pouco.

O que estava faltando?

Os balaústres que faziam a divisória que chamávamos de “cerquinha” a qual dividia o altar, quase exclusivo dos padres e coroinhas, da área reservada à comunidade. Na época eu nem sabia que balaústres era o nome daqueles “barrotes de madeira torneados”, que faziam a divisória.

Um degrau abaixo da linha dos balaústres, encontrava-se o genuflexório, ou, num português mais acessível, o estrado onde a comunidade se ajoelhava para a Comunhão, sempre após uma hora de jejum, no mínimo.

Os balaústres se foram, a Capela ficou maior, e a saudade mais ainda.

Essa é mais uma passagem que permanece viva no meu subconsciente, e me remete a infância em Siderópolis.

Mano Savi

ARQUIVOS DA HISTORIA DE NOSSA TERRINHA BOA SIDERÓPOLIS.