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Siderópolis – Afrodescendentes no Sul de Santa Catarina

Um pouco de nossa história através de entrevistas realizadas por:
THALYTA ZUCHINALLI

Eliana dos Santos

Fonte: Imagen concedida pela entrevistada.

Eliana dos Santos nasceu em 15 de dezembro de 1964 na Vila Brasília em Siderópolis, onde foi criada. É graduada em Estudos Sociais e professora efetivada na rede de educação estadual. Casada, mãe de três filhos. É uma das fundadoras da Sociedade Cultural e recreativa Cinco de Junho. Atualmente é apoiadora do Movimento de Conscientização Negra Cruz e Souza de Siderópolis e também representa a comissão da Marcha das Mulheres Negras da cidade, desde 2015. Seus pais tiveram experiências na trajetória da CSN na cidade, seu Dário e Dona Margarida (umas das entrevistadas). Atualmente reside em Siderópolis.

Gostaria de trazer as lembranças que foram rememoradas, através da entrevista realizada com Eliana, suas falas remetem desde momentos de sua infância, adolescência e fase adulta, trazendo também suas experiências como uma das fundadoras da SCRCJ. Começo pelas lembranças de sua infância, ―Nasci em uma vila operária, onde era composta por 36 casas, quando só existíamos nós de família negra. Eu nasci e me criei junto com as pessoas não negras, esse fato de viver com muita proximidade com essas pessoas, me fez pensar até então, até na minha infância que eu também era branca. Eu via minhas colegas com cabelos lisos com suas bonecas que identificavam elas e não eu (…) Eu dizia para as minhas colegas que eu não gostava de bonecas e era uma maneira de eu me defender porque as bonecas não tinham as minhas características.

Essas lembranças rememoradas por ela nos faz refletir sobre os referenciais brancos, que eram fortemente imprimidos naquela sociedade, fazendo com que ela se privasse do gosto pelas bonecas, como uma defesa, pois não se sentia representada por aquele perfil. Quando ela fala que ―Me fez pensar até então, até na minha infância que eu também era branca‖, a percepção que Eliana tem desse fato partindo do presente não é a mesma percepção que ela teve ainda enquanto criança, mas ela começava a sentir cedo as marcas de uma sociedade racializada, e dos deslocamentos da pertença. Ela começa a ter uma percepção diferente sobre as diferenças culturalmente estabelecidas entre brancos e não brancos, quando a relação com suas amigas da vila começa a mudar, ―Uma das partes da minha adolescência, é muito importante isso, onde me machuca muito. Nós meninas nos criamos brincando de amarelinha, boneca de pano, nós compartilhávamos nosso piquenique, o batizado de bonecas. Só que começamos a perceber lá na vila operária, onde eu morava, que quando nós fomos ficando mocinhas, adolescentes, que teria que sair para ir a um clube social, a mães começaram a podar nossa amizade. E eu lembro que teve uma mãe que disse assim ( para a filha, amiga de Eliana que acabou revelando essa fala) -‖agora tu não pode mais ser amiguinha dela, por que agora a Nani é uma mocinha , mas ela é negra e tu és branca, e se tu for vista junto com ela nos ambientes, não vai ter uma boa sorte um bom casamento‖- Até isso a gente já ouviu. Mas hoje eu considero isso como ignorância da mãe. A gente tinha um elo tão grande de amizade de quase irmãs, das família, que as meninas também brigavam por isso, mas mesmo assim elas foram se separando, começaram a frequentar outros ambientes, e nós outro ambientes, o ambiente de negros e ambientes de brancos. Foi aonde eu comecei a chegar mais perto da minha pele, da minha cor, pra ter uma identificação maior, porque com as minhas amigas as mães foram podando a amizade.

Essa exclusão social que os afrodescendentes sofriam no meio branco, ia além das possibilidades de Eliana naquele momento, eram construções sociais com uma proporção muito maior, as condições de uma sociedade racializada e que constantemente negava os referenciais africanos o que fazia com que as relações mais próximas e afetivas mudassem constantemente. A patologia social do branco pode ser pensada nesse tipo de relação estabelecida pelas mães das suas colegas através do afastamento da raça, dos referencias e significados que foram criados e estabelecidos sobre ela, o simples fato de ser comparada a uma afrodescendente já era problemático para o branco. Como ela foi nascida e criada em uma vila operária, de maioria branca, os referencias que estavam disponíveis para ela naquele espaço eram em sua maioria brancos, mas que encontrava um enfrentamento dentro de sua casa, com sua família. Ela relata que, ―Crescendo naquele ambiente, a princípio negando a minha negritude, por que eu nem me identificava como negra. Eu lembro que na escola quando a professora falava em negros eu me encolhia na carteira, tinha vergonha, parecia que ela estava falando comigo, eu era diferente das outras por que a maioria das meninas que estudavam comigo eram brancas.

Em uma sociedade onde a os referenciais e identificações com a ancestralidade africana eram negados, gerando a exclusão e a inferioridade, era difícil para uma criança se impor diante da diferença, portanto é na adolescência e no contato com pessoas de outros bairros que Eliana começa a se questionar sobre sua identidade e seu sentimento de pertença, com quinze anos, ―Quando eu saia, naquelas festinhas domiciliares, nas festinhas comecei a me identificar. Como eu falei, onde eu morava era vila onde existiam mais pessoas brancas e quando faziam essas festinhas vinham pessoas do Trilho, da Vila Esperança, do Centro, que eram as localidades que formavam o nosso município. Então, eu comecei a me relacionar com pessoas da nossa cor, aonde nós dançávamos samba, começamos a curtir Martinho da Vila, Benito Di Paula, Clara Nunes, Alcione já na época, e assim por diante outros cantores e cantoras negras. Aí é que eu comecei a me identificar, eu já tinha cortado as minhas tranças, usava cabelo Black Power, por que as minhas colegas que vinham para as festinhas elas já se vestiam e já tinham essa característica. E a partir do momento que a gente começou a ter mais contato com pessoas da nossa cor é que nos começamos a nos identificar enquanto negros e a começar a sentir que nós não éramos aceitos por outras minhas colegas brancas.

Eliana vinha de uma família de trabalhadores com uma vida simples na vila operária e também tinha uma criação muito curiosa, ela identifica as diferenças entre o pai e a mãe, ―Meu pai dizia assim:
―cada macaco no seu galho, ou seja cada cor no seu local, ou peão e peão e patrão é patrão‖ – E o meu pai no decorrer de tudo que nós fizemos de se auto afirmar, dos debates em casa, interessante que meu pai antes de morrer ele já pensava igualzinho a mim, que poderia vir uma mudança e que o racismo poderia ser amenizado. Porque quando nós éramos crianças ele dizia –‖não adianta, vai ser sempre a mesma coisas, nós já nascemos assim‖. A minha mãe já era diferente, estava no meio, cantava no coral da Igreja, onde existiam três mulheres negras, mas ali ela estava, fazia parte do Clube da Lady, clube de mulheres brancas, mas ali ela estava, ela foi cursar o ginásio o Ensino Médio, sempre procurou estar aonde as mulheres não brancas também estavam. Ela nunca se posicionou como quem não poderia estar ali por que ali a mulher branca está e ela não teria sua vez.

Em 1985 alguns afrodescendentes da cidade, Eliana e alguns amigos, começaram a sentir a necessidade de criar um grupo para sua representação, a necessidade do grupo a princípio veio com os questionamentos sobre os espaços de sociabilidade fazerem diferenciação dos seus frequentadores (clubes sociais da cidade) e também sobre a pequena presença dos afrodescendentes em vários lugares da sociedade, principalmente nos espaços de trabalho. Sentindo a necessidade de ocupar mais ativamente os espaços sociais, a preocupação do grupo era mudar o futuro dos afrodescendentes na cidade e de seus futuros filhos, lutando por uma sociedade mais igualitária. Eliana explica,

―Lá para os meus vinte pouco anos a gente formou, sentiu a necessidade de formar o primeiro movimento negro aqui dentro de Siderópolis. Nós já éramos bem politizados, chamamos dois vereadores porque nós conhecíamos muito pouco sobre leis, e começamos a nos movimentar. Começamos a perceber que no nosso grupo, tinham os que estudavam e os trabalhavam eram domésticas, eram funcionários de fábricas, não tinha um emprego que se destacasse, eu lembro que na época nós tínhamos aqui uma ou duas professoras negras, era uma coisa que não se via. Começamos a pensar, nós éramos em quatro, não tínhamos espaço no lazer e nem nos termos de emprego na cidade, foi por aí que começamos a pensar que não queríamos isso para os nosso filhos, e para que exista uma mudança nós temos que começar agora, para mais tarde nos colher aquilo que plantamos.

A preocupação daquele grupo era sua emancipação naquela sociedade, a garantia de igualdade e de oportunidades, como Eliana mesma coloca, os afrodescendentes ocupavam os lugares de trabalhos mais simples da sociedade, sendo isso um reflexo de muitos mecanismos de poder em uma sociedade racializada, hierarquizada e que propaga diferentes formas de racismo na manutenção dos privilegio da raça branca no campo simbólico e material da sociedade.

Esse movimento foi de luta, de resistência, da busca por mudanças na desigualdade social, no fortalecimento de sua identidade negra, num espaço de visibilidade, mas percebi que havia também um grande senso de solidariedade entre os membros,    sobretudo    para    ajudar    uns    aos    outros   no    seu crescimento pessoal e profissional, como menciona Eliana,
―O movimento começou como Grupo Libertação, bem forte na época, depois passou a se chamar Cinco de junho. O grupo libertação, surgiu com a palavra de liberdade, de voar, de longe, de conquistar de chegar nos nossos objetivos, mas depois houve uma polêmica, se tornou um nome muito forte, para alguns, para mim não eu achava que era um nome ideal, uns diziam que era sinônimo de racismo. A escolha do nome foi pelo dia do registro mesmo da grupo. Nós fazíamos filantropia, pedágio, bingo, almoços para reunir a comunidade negra, café da tarde, festa na frente da igreja. Não era pra arrecadar fundos, pra fazer dinheiro, claro que queríamos fazer a nossa sede, mas nós ajudávamos quem precisasse, negro branco nos estávamos ali para acudir, o movimento trabalhou muito nessa linha. O movimento também me ajudou na minha formação, porque na minha graduação chegou um momento que eu não tinha mais condições, aí o movimento negro ganhou uma barraca em uma festa em Siderópolis, eles trabalharam três dias, numa roleta e tudo que eles arrecadaram naqueles três dias, veio para pagar as três mensalidades que estavam atrasadas mais a matrícula para o próximo semestre. O objetivo do movimento era de muita ajuda e também de criar uma sociedade recreativa, uma sociedade onde os negros pudessem ficar mais a vontade, para fazer festa de batizado de filho, festa de 15 anos de casamento, um local recreativo, esse também era um objetivo‖.

Concluo a entrevista perguntando a Eliana qual a importância que o Movimento Negro tem em sua vida e ela me responde,

―Esse movimento me ensinou muito, praticamente em termos de minha negritude os conhecimentos que eu consegui adquirir foi através do movimento por que a gente fazia muito seminário, muita reunião, muito debate e a partir do momento que tu veste uma camisa tu vai buscar e essa busca é que me trouxe hoje a ser essa mulher que luta pelos meus direitos que me vejo mais corajosa, sem medo de estar no meio, isso eu vim aprendendo no decorrer do tempo.

 

Prossigo  a  discussão  sobre  a  trajetória  da  Sociedade
Cultural   e    Recreativa   Cinco   de   Junho:

João Batista da Silva

Fonte: Imagen concedida pelo entrevistado

João Batista da Silva nasceu em 23 de junho de 1966, em Siderópolis. Concluiu o Ensino Fundamental, e aposentou-se como mineiro. Filho de pai também mineiro e de mãe dona de casa. Casado, pai de quatro filhos. Atualmente é membro do Movimento de Conscientização Negra Cruz e Souza de Siderópolis, sendo um dos fundadores da Sociedade Cultural e Recreativa Cinco de Junho. Atualmente reside em Siderópolis.

Ambos os entrevistados desse capítulo são descendentes dos trabalhadores pioneiros da trajetória da mineração da cidade. Eliana é neta de um dos trabalhadores que preparou o terreno para a instalação e construção das primeiras casas da Vila Operária no Bairro Rio Fiorita (será apresentado no segundo capítulo) e filha de trabalhadores da CSN e João Batista é neto de um dos trabalhadores que foi mão de obra para a construção do túnel na cidade. O registro de nascimento do pai de João, seu Sebastião da Silva, foi encontrado nas pesquisas realizadas no cartório com as devidas considerações, registrado em Siderópolis em 18-03-1944, nascido em Palhoça, filho de Lauriano Francisco da Silva, que tem a profissão do pai definida como a carpintaria, já sua avó veio da Serra e se instalou na comunidade do Rio Jordão, como relatou João. João relata que após seu avô trabalhar na construção do túnel permaneceu na cidade e foi trabalhar nas minas de céu aberto.

Seu pai também foi mineiro, das minas do dia, e se estabeleceu na cidade com sua família, aposentando-se pela prefeitura de Siderópolis, sua mãe era dona de casa (do lar). João Batista trabalhou desde os sete anos de idade (carpindo quintais, vendendo amendoim torradinho, picolé e engraxando sapato) e aos 16 anos ele começou a trabalhar no mercado da cidade, após a morte de seu pai ele como um dos filhos mais velhos acabou tendo a responsabilidade de ajudar em casa. João recorda da sua infância e traz na sua memória as lembranças que ele tem sobre as práticas do racismo, ele comenta que,
―Era negros e brancos, tudo misturado. Quando eles brigavam com a gente e não podiam ir com a gente na força física eles apelavam para a ignorância, chamavam de macaco, de isso de aquilo. Uma data que eu nunca gostei foi o 13 de maio, quando ia chegando perto do dia 13 de maio eu ia ficando incomodado, vinha aquela comemoração no colégio, isso aí é uma coisa que na escola eu nunca gostei.

Desde criança ele já percebia alguns comentários preconceituosos e racistas sobre ele e com certeza são marcas que ele traz consigo, sem contar que a data comemorada na escola, o 13 de maio o entristecia, por um motivo óbvio, retratava o escravo, e não as experiências dos afrodescendentes, sua história de luta, retratava toda a negatividade sobre os referenciais africanos e sobre os afrodescendentes que viveram a experiência da escravidão. Ele coloca como lida com o racismo sofrido em sua vida ―Eu Tita, eu não sofro tanto com o racismo porque eu brigo, mas dói na carne, mas acho que todos se sentem assim, quando passa uma coisa na televisão a gente sente, as vezes corre a lágrima e não é nenhum nem outro, eu acho que é a maioria.‖ , por mais que ele faça o enfrentamento sobre as práticas racista e que diga que não sofre com o racismo, sua comoção atravessa suas próprias experiências justamente por ele saber como o outro se sente, pois as experiências são semelhantes. 24 Perguntei a ele como ele sentia o racismo nas suas experiências enquanto adolescente, ele conta como era sua convivência com os colegas da escola, o que ele define como uma condição racista velada, que não ficou apenas em seu passado, mas que ainda se perpetua como ele comenta,
―A convivência na realidade era como ainda é hoje. O racismo no Brasil, para mim é o pior racismo que tem. Eles (os racistas) batem nas tuas costas e dizem que não são disso, mas é não adianta, é. Eles te discriminam por palavras, por gestos, fechando as portas, a discriminação existe, não adianta. (…) Com o tempo eu estou sendo mais maleável, porque eu digo assim, a gente tem que jogar o jogo deles, fazendo de conta, entra em um ouvido e sai pelo outro, ir trabalhando a nossa raça, pra se expandir conhecimento, fortalecer no estudo. Assim como a mulher está ocupando o espaço nas empresas eu acho que os negros também pode ocupar o espaço dele tendo bom conhecimento.

Percebo na fala de João uma espécie de tática de sobrevivência e de emancipação, na entrevista realizada percebi na fala e nas ideias colocadas por João, essa tática como uma emancipação para os afrodescendentes, relacionadas com as oportunidades e qualificação desses sujeitos, sobretudo no mercado de trabalho, mas esse crescimento também está associado a estar no mundo, pensar sua negritude. João nasceu em Siderópolis, tendo uma infância e uma adolescência marcada pelo trabalho, pelo esporte, pelo estudo e pelas responsabilidades de ajudar sua família com apenas 16 anos, sua vida social na adolescência foi marcada pelo esporte, jogando bola aos domingos e pela diversão nos clubes aos sábados, indo ao Clube União Mineira, ao clube União Operária, ao Clube Brasília e ao Brotolândia em Criciúma e em Siderópolis no Recreio do Trabalhador, no Siderópolis Clube, no Clube União. João conta um pouco dessas experiências e sobre o fato de alguns lugares serem reconhecidos como espaços de brancos e não brancos,
―Podia entrar também, (nos clubes), mas tinha uma restrição tinha, a gente sentia que tinha, mas deixavam entrar. Inclusive tinha muita gente que dizia assim: Aqui não é o clube de vocês, o de vocês é o outro lá, é o união, o de madeira. No Siderópolis Clube eu fui poucas vezes, não adiantava ali, se no Recreio já era que ia bastante gente da comunidade do Fiorita que a gente conhecia, no Siderópolis Clube não dava para entrar. Eu não me sentia nem bem ali, não tinha como se sentir bem ali. Até porque a nossa raça ela é alegre, ela dança diferente, então tu tem que estar bem para dançar, de espírito aberto para poder dançar, era a época do Michel Jackson.

Através da fala de João, podemos perceber que não havia uma segregação estabelecida pelo Siderópolis Clube 27, mas essa estranheza e separação existia de maneira cultural, no imaginário daquela sociedade. João comenta que o Clube União Mineira atravessou a década de 1970 e que ainda na década de 1980 havia promoções realizadas pelo SCRCJ, esse era o clube reconhecido pela presença majoritária de afrodescendentes, ou popularmente tido como o Clube dos negros. Sobre suas idas ao Clube União ele comenta,
―No União Mineira fui muito, me sentia em casa, negro bem vestido. A gente se sentia bem, brincava, ria, parecia que a hora não passava. Dava bastante gente, a maioria era de negros, para entrar um branco ele tinha que ser muito amigo dos negrão para entrar. Tenho bastante lembrança do União, tinha uma diretoria, foi fundada pela CSN a pedido do pessoal da raça né.

 O Siderópolis Clube que ficava bem no centro da cidade e foi criado bem depois do Recreio do Trabalhador e do Clube União.

 Assim com Eliana, João também foi um dos fundadores da SCRCJ, ele conta um pouco sobre como esse grupo, a princípio foi se estabelecendo e ganhando maturação até que posteriormente tenha se tornado uma sociedade mais organizada,

―Nessas nossas amizades, eu o Cielo, a Nani, o Calo, a Vone, a Dona Jandira, o Neri, tinha um branca no meio a Melânia, a gente saia junto conversava. Fim de semana a gente se sentava para conversar na casa e fulano na casa de beltrano e a gente tinha as ideias e na época também tinha o grupo de jovens, eu participei o Neri participou, a gente queria fazer uma coisa diferente, e tinha também um grupo de música chamado Contact Band, que ensaiava na casa da nani, o Cielo tocava, o Calo tocava, essa Melânia que era a branca era uma das vocalistas, e eu acredito que foi por intermédio disso aí que se formou o grupo, com essas amizades a gente fundou o gruo, porque a gente se reunia no porão da casa da Dona Jandira e na casa da Nani e ali que foi amadurecendo o grupo. Era um grupo de jovens que depois tronou-se no movimento negro.

Ele tinha apenas 18 anos quando começou a pensar na possibilidade de mudanças para a população de afrodescendentes da cidade, teve suas próprias experiências pessoais como impulsionadoras para pensar as experiências dos afrodescendentes naquela sociedade e para vislumbrar mudanças nas condições de vida dos mesmos, de sua geração e das gerações futuras, dos próprios filhos, ele conta um pouco sobre como pensava essa associação (SCRCJ),
―Eu vou falar por mim e que muitas vezes divergia da ideia de todos. Eu Tita, Eu quando estudava eu queria ser um advogado, meu sonho era ser um advogado, mas na época a dificuldade era muito grande. Nós temos que nos organizar como movimento para poder dar suporte para pessoas que querem crescer na vida, do nosso pessoal, não pessoas brancas, pessoas negras, inclusive para fazia um caixa, por exemplo assim: o Cielo vai casar, o próprio Cielo vai querer estudar, fazer uma faculdade, ele vai seguir como um cara normal, vai para a faculdade dele, mas vai que uma hora ele não consegue ele tem que ter um suporte para poder continuar. Seria dessa maneira, para pessoas negras crescerem, essa era a minha ideia. As pessoas negras eram pobres, nós éramos pobres, só a Fatima mesmo era professora, nós não tínhamos nenhuma outra pessoa do nosso meio que tinha estudo, em 1985 não é muito longe. Nos tínhamos e temos que criar uma legião de negos com estudo. Por exemplo assim: tem uma certa discriminação em uma empresa, a gente tem que estar organizado para combater aquele tipo de discriminação. Essa era a ideia e que acho que continua sendo até hoje, que nós precisamos disso até hoje, então já começou lá atrás.

Margarida Maria Teixeira dos Santos

Fonte: imagem concedida pela entrevistada

Margarida Maria Teixeira dos Santos, nascida em São Vicente, São Paulo, em 1932. Chega em Tubarão, cidade dos familiares de seu pai, em 1945 e cinco meses depois vem para Siderópolis, com apenas 13 anos, era filha de mãe lavadeira e de pai portador da Estrada de Ferro Sorocabana. Dona Margarida casou-se com seu Dário dos Santos, já falecido, que trabalhou na CSN, é a mãe da também entrevistada Eliana dos Santos e de mais sete filhos. Dona Margarida foi empregada doméstica, escolhedeira de carvão, dona de casa, e aposentou-se como funcionária pública após prestar concurso e efetivar-se. Atualmente reside em Siderópolis.

A trajetória de Dona Margarida e de sua família na cidade contribuem muito para refletir sobre a presença dos afrodescendentes na cidade e suas trajetórias, através de suas diversas experiências sobre o contexto histórico analisado. Com 84 anos Dona Margarida relembra momentos de sua infância, em meio a sorrisos e pausas ela abre sua memória para mim. Morando na cidade desde 1945, filha de um empreiteiro da CSN, escolhedeira de carvão na adolescência, empregada doméstica, e também funcionária pública, esposa e irmã de um dos trabalhadores da CSN, suas lembranças relacionadas à mineração fazem parte das memórias de sua vida. Todas suas memórias são muito interessantes, mas tive que escolher e selecionar as partes que considerei mais importante para construir essa narrativa. Como coloca Cléria da Costa, Dona Margarida, começa a revelar suas lembranças ainda de sua infância quando chega em Tubarão em 1945, e no mesmo ano vem para Siderópolis, com os pais. Seu pai vem de São Paulo para Tubarão, de onde era natural, em busca de outro emprego, pois já era aposentado, e sabendo da CSN vem para Siderópolis para trabalhar com empreiteiro, como fala Dona Margarida:
―Ele era empreiteiro, ele pegava empreitada de estocar terreno, não tem assim quando vão construir as casas ali, tem aquelas árvores? Então, eles tem que tirar aquelas árvores, tirar os tocos, como aconteceu aqui, essa operária foi tudo feita assim, Siderópolis, na mão dele.

O pai de Dona Margarida foi um dos trabalhadores da CSN, nos primeiros anos de sua instalação, ele também foi um dos sujeitos que fizeram parte da história da cidade. A própria Dona Margarida foi um desses sujeitos, trabalhando por quase dois anos como escolhedeira de carvão, começando aos 14 anos, após os 16 anos tornou-se empregada doméstica na casa de um dos engenheiros da CSN, Seu Sebastião Toledo dos Santos. Relatando sobre suas experiências como escolhedeira,42 ela comentou que era um trabalho duro e que elas ganhava pouco pelo serviço que faziam. Percebi em sua fala uma nostalgia ao lembrar aquele trabalho que ela comenta que gostava, escolhi essa fala onde ela relata um pouco de como era o seu trabalho,
―O trabalho era assim, a gente se sentia bem à vontade, bem em casa (…) só tinha mulher, e a 42 Eram as mulheres que classificavam o carvão vindo do subsolo. O processo de escolha do carvão era em geral realizado em um espaço coberto, onde havia uma mesa comprida utilizada para fazer a seleção. (…) Antes de colocar o carvão bruto sobre a mesa, ele passava por uma peneira que tinha a função de separar o carvão fino (a moinha) do carvão graúdo. O serviço de peneiramento do carvão, antes da escolha era considerado trabalho para homens, mas as mulheres também o realizavam (…) Cada escolhedeira tinha uma ―picaretinha‖ de mão utilizada para separar ou arrancar as pedras que vinham associadas ao carvão e um caixote ou uma padiola para pôr o carvão escolhido. Os caixotes, depois de cheios, eram despejados em montes de carvão escolhido ou na caixa de embarque (silio para o carvão).

O chefe da gente, ali que fiscalizava o carvão que a gente escolhia também era mulher (…) entrava as cinco da manhã e saia a tarde, as quatro da tarde, ou cinco da tarde. Aí a outra semana, eu já não fazia mais aquele turno (…) eu gostava do serviço sabe (…) Nós trabalhávamos tão animadas, cantando…

Esse era um trabalho que acabou se tornando exclusivo de mulheres em determinado momento, pois os homens o realizaram apenas por um tempo. Carola, relata a invisibilidade dessas trabalhadoras na história da mineração catarinense, como escolhedeiras também ficou invisível, mas através de outras fontes, fontes orais, sabemos que essa presença também existia nesse meio de trabalho, como conta Dona Margarida,
―Tinha bastante negra, vinham uma porção de negras lá de Criciúma.

Na década de implantação da CSN o fluxo migratório na cidade era intenso, a família de Dona Magarida e outras famílias permaneceram na cidade onde ela inda reside, mas muitas pessoas e famílias voltaram para suas cidades, ―Estima-se que mais de mil famílias vieram do rio Grande do Sul para a região carbonífera atraídos pelos empregos nas minas e pelo salário, porque os trabalhadores das minas eram os mais bem pagos‖45. Como Dona Margarida lembra: ―Veio bastante negro naquele tempo que ele veio (refere-se ao seu marido), de Florianópolis, ali do Estreito, ai como tinha, como tinha negro‖46, a presença dos afrodescendentes na cidade é relatada por ela, mas sua invisibilidade na historiografia é recorrente.

Após trabalhar de escolhedeira de carvão, ela começa a trabalhar como empregada doméstica na casa de um dos ex-engenheiros da CSN, Sebastião Toledo dos Santos, que posteriormente passa a ser um dos proprietários da Companhia Treviso, uma outra mineradora da região. Dona Margarida foi empregada doméstica dos dezesseis aos dezenove anos, trabalhou em algumas casas de funcionários da mina e foi indicada para trabalhar na casa de Sebastião. Nas falas de Dona Margarida ela descreve um pouco das experiências que teve nesse espaço de trabalho e das relações que foi estabelecendo, como ela conta, ―Eles foram umas pessoas que sempre me valorizaram muito, eram conselhos bons, eram presentes bons, fui uma empregada que nunca esperei eles almoçarem primeiro, mesmo com visita.

Dona Margarida em nenhum momento relata qualquer tipo de relação diferenciada entre patrão e empregada ou qualquer experiência negativa naquela casa, sobretudo de práticas racistas, ―Era assim, nunca percebi nada deles, de alguma coisa assim, até a Dona Nelita era muito simples, ela ignorava essas pessoas assim, ela era muito humilde, não era exaltada como certas pessoas lá na vila, porque ter tinha.

Ela refere-se a essa família com muito carinho e relata que seu Sebastião ajudou seu marido a conseguir um emprego na Companhia Treviso, mesmo após ela não trabalhar mais na casa dessa família ela conta que,
―Eles se preocupavam muito comigo, de eu passar fome, quando o Dário queria sair da CSN, ir para terra dos pais, eles não deixaram, ela me disse : vamos arrumar um emprego para ele ficar aqui.‖ 49 O fato de ela manter contato com essa família mesmo após não trabalhar mais lá, e de Dona Nelita dizer que queria batizar um dos seus filhos deve ter sido muito significativo para Dona Margarida.

A dificuldade em encontrar fontes e dado sobre os afrodescendentes nas referências sobre a cidade é constante, mas o que se torna um ponto de reflexão nessas produções é sua invisibilidade. Mas essa não é uma dificuldade apenas com os trabalhadores afrodescendentes, mas sim com os trabalhadores em geral, como coloca Carola, ―(…) nas fontes documentais e oficiais, a presença dos trabalhadores é praticamente insignificante. Parece que a indústria do carvão surgiu, cresceu e desapareceu sem a participação dos trabalhadores‖ (CAROLA, 2002, p. 24 ). Se há dificuldades em encontrar referências sobre os trabalhadores das minas, que são os principais agentes do funcionamento de toda aquela economia, mais difícil ainda seria encontrar sobre os trabalhadores afrodescendentes naquele contexto, que tampouco foram vistos como sujeitos, menos ainda como sujeitos transformadores.

Os trabalhadores mineiros tinham uma vida difícil, o espaço de trabalho ou até mesmo a rotina de trabalho eram desgastantes e exigia muito de seus trabalhadores, a historiadora Terezinha Volpato, explica um pouco desse cotidiano,

O local de trabalho era um dos mais marcantes e paradoxais nas trajetórias desses trabalhadores, uma mistura de medo e coragem. Dona Margarida também nos relata a trajetória de seu esposo na CSN, Seu Dário dos Santos, natural de São Pedro de Alcântara (Florianópolis), que chega em Siderópolis em 1948, vindo por intermédio de uma amigo que já trabalhava na CSN. Começa a trabalhar nas minas de céu aberto trabalhando com dreno e posteriormente como encanador, permanecendo na companhia por oito anos, saindo da CSN para trabalhar em outra mina, na Companhia Treviso.

Seu Dário era um desses trabalhadores de apoio, não era mineiro de subsolo, mas realizada suas atividades no espaço dela. Volpato, relata um pouco sobre os trabalhos de manutenção e apoio nas minas,

Seu Dário e Dona Margarida casaram, tiveram filhos, moraram nas vilas operárias da cidade, viveram suas vidas em torno da rotina da mineração, tiveram muitas experiências naqueles espaços. Por vezes as falas de Dona Margarida revelam a memória do outro, não só as memórias do esposo, mas uma memória das experiências coletivas também. 50 Essas memórias tão remotas, são difíceis de alcançar, muitas pessoas que viveram aquele período na cidade não estão mais vivas para fornecer relatos sobre aquela sociedade, Dona Margarida é uma das poucas pessoas com essa idade e com uma memória e lucidez invejável.

A presença dos afrodescendentes no espaço de trabalho em Siderópolis se constrói também na (CSN) era raro ocuparem outros espaços de trabalho. Dona Margarida ao ser questionada sobre a presença dos afrodescendentes fora do espaço de mineração e das vilas operárias comenta que: ―Não, não. (…) era pior que agora, bem pior. Naquele tempo era na mina , em loja não tinha mesmo.‖ 51 ela não tem lembrança de ter visto afrodescendentes fora do em torno da mina, principalmente nos espaços de trabalho. O Bairro Rio Fiorita, era o bairro das minas, da vila e também dos clubes e do campo de futebol, tudo que se referia a mineração se concentrava naquele espaço, o centro ainda era um lugar predominantemente branco e de imigrantes italianos.

Seu Dário e Dona Margarida, como tantos outros afrodescendentes, contribuíram com o seu trabalho para a transformação da cidade, ocupando cargos em funções tidas como comuns, mas não menos importantes que as outras, pois cada função tinha sua importância, foram sujeitos indispensáveis para as mudanças que vinham se configurando naquele contexto social da cidade.

 

 

Maria Nazaré Vargas dos Santos

Fonte: Imagem, concedida pela entrevistada.

Maria Nazaré Vargas dos Santos nascida em Lauro Müller em 1942. Filha de mãe professora e pai eletricista. É professora normalista aposentada. Veio para Siderópolis em 1963, com 21 anos para lecionar na Escola Básica José do Patrocínio. Nazaré casou-se com Seu Renê Nascimento dos Santos, já falecido, que foi funcionário da CSN, eles tiveram quatro filhos. Atualmente ela reside em Siderópolis.

Dona Maria Nazaré Vargas dos Santos tem 74 anos, veio para Siderópolis aos 21 anos, no ano de 1963, para lecionar na Escola Básica José do Patrocínio, acabou se estabelecendo na cidade e fazendo sua carreira, posteriormente conhece seu futuro esposo, Seu Renê Nascimento dos Santos, com que constrói uma família. Dona Maria estudou quatro anos no ginásio no Colégio Estella Maris, em Laguna, sendo a única aluna afrodescendente da classe, e estudou três anos no Colégio São José em Tubarão, que era uma das escolas mais famosas do Sul de Santa Catarina, onde concluiu sua formação de normalista. Seus pais pagaram seus estudos, pois não havia escolas normais próximas, apenas o ginásio.

A profissão de professora nesse contexto tinha suas exigências como, intelectualidade, moral, capacidade e acima de tudo ter a profissão de professora como uma missão. (KRAUSS, 2012). Com o avanço do capitalismo e a instituição dos sistemas de educação houve uma ampliação das mulheres como professoras primárias, essa sendo destacada como uma profissão de virtude, ao longo do século XX se estabelecendo como uma profissão para mulheres, possibilitando a aprovação da mulher na sociedade, a professora normalista deveria ser uma disciplinadora de si mesma e da classe. Apesar das iniciativas sobre a educação mesmo no pós-abolição, no que se referia à população de afrodescendentes ela ainda era falha. O Ser mulher na década de 1940, 1950, 1960, era uma condição muito mais difícil do que a atual, embora ainda se tenha muito pelo que lutar, ser professora naquele contexto era sinônimo de respaldo social. Dona Maria tinha sua rotina de trabalho em um espaço majoritariamente branco, ela era a única professora afrodescendente da época, nesse sentido perguntei a ela como era seu cotidiano na escola e ela relata que seu cotidiano na escola era bom, porque era um ambiente solidário, mas também traz falas que revelam algumas questões raciais com abertura, ressaltando que,

―A gente percebe como é visceral no Brasil, o racismo sempre existiu, não livrou também a escola. As próprias colegas minhas, que eram minhas amigas, diziam que gostavam de mim, mas a gente percebia o racismo, velado mesmo. Às vezes de repente uma dizia alguma coisa e a outra pisava no pé da outra, porque eu estava ali presente, mas eu via. Em toda sociedade, tanto na classe miserável, como na classe média baixa, como na classe média como na rica, sempre existiu e não vai acabar.

Após essa fala, nós conversamos um pouco sobre o racismo no Brasil e Dona Maria me diz assim, ―Ó, vou te contar uma coisa‖, e então ela me revela um fato que aconteceu com a família dela, que me deixou muito comovida. Em decorrência da Festa de Nossa Senhora Aparecida na cidade, havia um concurso das rainhas e princesas, Maria conta um fato que revela uma das práticas operantes de racismo na sociedade, que aconteceu com sua filha. Um senhor da cidade pensou em colocar a filha de Dona Maria e Seu Renê, com cinco anos, como candidata pra concorrer a rainha e a princesa da festa, o senhor comentou com seu Renê para pensar sobre isso e de acordo com Dona Maria eles aceitaram que a filha participasse do concurso. Com o passar dos dias o senhor veio falar que não seria possível que a filha deles se candidatasse, pois na comissão da festa duas pessoas não haviam concordado porque a menina era afrodescendente. Analisando o fato de que Seu Renê ocupava um cargo menos comum para afrodescendentes na CSN, e que poderia ser aceito com mais facilidade em alguns espaços pelo seu cargo, isso não aconteceu, a barreira da cor e de seus significados transcendia a questão de ocupar um cargo que exigia estudo (prático de farmácia), portanto mais considerado. Dona Maria não economiza nas falas e revela a presença do racismo naquela sociedade e de suas lembranças e experiências vividas. Nas falas senti o rompimento de um silêncio, de uma memória que precisava ser revelada e que veio de modo espontâneo na conversa, a falta de escuta sobre essas lembranças são comuns, talvez nunca perguntadas. Dona Maria aproveitou a oportunidade da escuta e resolveu desabafar, sobre essa questão Michael Pollak nos traz uma concepção interessante,

Continuo a entrevista fazendo perguntas sobre seu marido, sua profissão e sobre o cotidiano do casal. Seu Renê Nascimento dos Santos nasceu em 1933, natural de Tubarão, era prático de farmácia veio para cidade em 1958, para exercer sua função, mas acabou trabalhando quatro meses na padaria até a farmácia ficar pronta e nos anos de decadência da CSN, foi trabalhar de auxiliar de escritório da companhia, já na década de 1980. Para compreender os espaços de trabalho da CSN, perguntei a Dona Maria como era a presença de afrodescendentes no setor onde o marido trabalhava, e ela responde que, ―Tinha, ali na farmácia, tinha o pai do Flavinho, seu Celso (…) seu Celso era zelador.‖ 53 Ela revela também, com suas lembras, a presença de alguns trabalhadores afrodescendentes na CSN e cita alguns nomes como,
―Francisco de Paula Menezes encarregado da oficina mecânica,

 

É possível perceber algumas diferenças nas trajetórias desses casais. Enquanto Dona Maria e Seu Renê vieram para a cidade com profissões estabelecidas para fazer sua carreira na cidade, ocupando lugares pouco ocupados por afrodescendentes, Dona Margarida e Seu Dário vieram no início da instalação da CSN na cidade, num território em expansão, sendo que Dário não tinha uma profissão que se adequava aos setores de cargos de destaque da companhia e Margarida teve que batalhar muito até ter a oportunidade de completar seus estudos e se tonar funcionária pública muito anos após sua vinda para a cidade.m ser repensadas.

 

Ranolfo de Oliveira Souza

 

Ranolfo de Oliveira Souza, nascido em Canoas, Rio Grande do Sul, em 1935. Não era apenas um profissional de Futebol, estudou até o quarto ano primário, exerceu outras funções enquanto trabalhador foi carpinteiro, pedreiro, pintor, cervejeiro, oleiro, encanador. Chega em 1962 em Siderópolis, através de uma proposta para jogar no Itaúna Atlético Clube e também se torna um funcionário da Companhia Siderúrgica Nacional, com a função de lubrificador de lavador de carvão na mina de céu aberto. Seu Ranolfo veio para cidade com sua esposa Dona Tereza e dois filhos pequenos e tiveram mais 12 filhos. Jogou no Itaúna Atlético Clube de 1963 até 1974, sendo treinador do time por 1 ano e encerrando sua trajetória no futebol em 1975, aposentando-se anos depois pela CSN em 1984. Atualmente reside em Siderópolis.

Seu Ranolfo começou sua trajetória no futebol nos times juvenis, no Juvenil Grêmio Esportivo Renner e no Juvenil do Esporte Clube Internacional, depois foi jogar na cidade de Estrela, sendo profissional no Estrela Futebol Clube, ele fazia do esporte uma profissão, mas não a única, ao mesmo tempo que jogava no Time do Estrela ele também trabalhava em uma cervejaria, depois foi contratado pelo Atlético Clube Lansul. Estudando até o ensino primário ele sempre teve que trabalhar para ajudar a família, pois perdeu o pai quando tinha11 anos e depois de casado teve que trabalhar para sustentar a família, teve 14 filhos, sua esposa começou a trabalhar e a contribuir financeiramente a partir da década de 1980, pois precisava dar conta dos afazeres da casa e dos filhos. A vinda de seu Ranolfo a Siderópolis foi através de um treinador do Time do Lansul, Laerte Dória que veio para Santa Catarina para treinar o Comerciário Esporte Clube e posteriormente o Itaúna Atlético Clube, como era ex-treinador do Time do Lansul, Laerte trouxe alguns jogadores do time para jogar no Time do Itaúna para realizar um jogo contra o Football Clube Treviso, pelo bom desempenho de Seu Ranolfo nos treinos e no jogo clássico ele foi convidado a jogar no Itaúna Atlético Clube, e ele aceitou o convite e veio para Siderópolis em 1962, mas com a condição de que lhe garantissem um emprego.

Seu Ranolfo o centro avante do Itaúna Atlético Clube, foi disputado por alguns clubes da Região como o Esporte Clube Próspera e o Esporte Clube Metropol, mas ele escolheu o Itaúna Atlético Clube pela promessa de um emprego na Companhia Siderúrgica Nacional, mas isso não aconteceu de imediato, pois ele ficou oito meses em Siderópolis jogando, mas sem trabalhar na CSN, fazendo algumas empreitadas na cidade, a companhia lhe forneceu uma casa enquanto ele ficava na espera de um emprego. Começou como um contratado pela companhia para sondagem de poço, pra ver qual a profundidade onde se encontrava o carvão, e a partir daí o Engenheiro Mozart Viera foi conhecendo o trabalho de Seu Ranolfo e resolveu contratá-lo por nove meses para exercer os serviços gerais. Contando essa história Seu Ranolfo traz um fala importante para pensarmos a importância que ele dava e que a sociedade dava em ser um homem respeitado por seu trabalho, Seu Ranolfo comenta que, ―Eu trabalhava, a minha fama de trabalhador já estava correndo aqui.‖ 86 , além de ser uma figura importante para o futebol, Seu Ranolfo era um homem respeitado pela sua fama de trabalhador, o que se tornava ainda mais importante para um homem afrodescendente naquela sociedade.

Tendo visibilidade no Itaúna Seu Ranolfo foi convidado a jogar no Clube Naútico Almirante Barroso, ele aceitou e foi para Itajaí em 1963 com sua família e ficou um ano jogando nesse time, depois retornou para o Atlético Itaúna Clube, sendo contratado como lubrificador de máquinas de lavar carvão, se aposentando nessa profissão. Seu Ranolfo conta que tinha algumas ―regalias‖ e ganhava ajuda financeira do Engenheiro Mozart Vieira, além de seu salário como funcionário na CSN e do salário como jogador do Time Itaúna, ele ganhava mensalmente cinco mil cruzeiros. Seu Ranolfo fala de Mozart com muito carinho, e sempre enfatiza que foi muito bem tratado por ele, acreditando que pelo fato de ser um jogador excepcional, como ele mesmo fala, ele tenha recebido tanta apreciação.

Seu Ranolfo também morou na Vila Operária do Rio Fiorita, em uma casa tipo 1 na rua 12 e na rua 5, assim como a maioria dos jogadores do Time Itaúna que moravam na Vila Operária, Seu Ranolfo relata que o Itaúna era um time de pessoas de fora, poucos trabalhavam na CSN, muitos viviam apenas do futebol. Conversando um pouco mais sobre a vida na Vila Operária Seu Ranolfo comenta que, ―Aqui a relação era muito boa. Sabe que aquela época uma coisa que me chamava muita atenção, era que quando uma pessoa ficava doente em uma casa todos os vizinhos se preocupavam e se tu saia e o outro vizinho ficava aquele vizinho cuidava da casa da gente.‖87 Essa relação nas vilas já foi mencionada em outro capítulo, e pode ser compreendida como uma relação ambígua, que se modifica em decorrência do espaço e da situação. Eu prolonguei a conversa e perguntei se todos se relacionavam de modo igual, sem discriminação ou diferença, Seu Ranolfo respondeu que não, ―Na época que nós chegamos aqui nós não sentimos isso ai.‖88 e ele continua falando sobre as festas daquela época e do como como as pessoas se vestiam, ―Aquele tempo aqui as festas da Companhia era todo mundo engravatado, ô coisa elegante (…) e uma coisa que me chamou muita atenção quando nós chegamos aqui, o carnaval, a companhia fazia o carnaval dos brancos e o carnaval dos pretos. Ranolfo em Julho de 2016.

Seu Ranolfo e Dona Tereza frequentavam o Clube União Mineira e o Recreio do Trabalhador, ele conta um pouco sobre como foi sua experiência no Recreio, ―Nós não sentíamos o racismo, a gente se dava com todo mundo, mas a gente via, sabe por quê ? Quando começava o baile ficava, por exemplo, tu pegava tua turma e ia lá para um canto e ficava uns 10, 15 brancos lá, mas depois dançando não tinha nada de briga.‖ 90 E então eu perguntei como eram tratados os jogadores nessa época e ele comenta que, ―Aqui o jogador era bem tratado, ô.

Seu Ranolfo jogou até os 35 anos no Itaúna Atlético Clube de 1963 a 1974, foi 12 anos capitão do time e deixou de jogar porque perdeu o ―amor no campo.‖ como ele comenta,
―Eu entrei no campo duas vezes desde a época que eu parei de jogar. Tanto que eu gostava do Itaúna. Era um amor que eu tinha nesse time, houve muito desvio de coisas. Eu via aquele desvio todo, eu sabia de tudo e eu nunca gostei de conversa, ai eu abandonei tudo.‖ 92 Perguntei a ele se ele já avia sofrido alguma situação de racismo dentro do time, e ele me revela que, ―No Itaúna não. E eu sempre dentro do time ,eu era uma pessoa que eu era bem quisto pelos dirigentes, eu era o intermediário da turma né, se eles queriam alguma coisa ou queriam reclamar eu ia atrás, eu ia no treinador, no diretor, no presidente. Nunca fui impedido, só fui impedido no teste do Juvenil do Grêmio. Isso aí eu nunca me esqueço. Eu tenho raiva do Grêmio até hoje. Nos fomos em quatro, dois rapazes eram brancos, mas depois eu soube porque. Foram chamados para treinar, cada um com sua chuteira, chamaram só os dois brancos e mandaram nos esperar, esperamos e esperamos e nada… Depois nós fomos descobrir o Grêmio não deixava treinar preto, porque a dona do campo do Grêmio era alemã e ela tinha raiva de negro. Depois ela morreu, eu nunca esqueço, foram três jogadores daqui de Laguna Jogar no Grêmio, negro, o Mengala, o Juarez e Figueró,

Apresento uma Imagem concedida por Ranolfo da formação do time em 1974, com os Jogadores, Edival, Nilton, Guinga, Adilson, Vilson, Jopá, Darci, Oli Rodrigues, Chegada, Carica, Amauri, Julião, Luizinho, Lica, Ranolfo (o segundo da direita para esquerda fila inferior), e Esquerdinha.

 

 

Essa imagem, demostra a presença dos afrodescendentes no Itaúna Atlético Clube, dos dezesseis jogadores, dez são afrodescendentes. A presença desses na história do futebol sideropolitano tem sua representatividade, e embora não tenha sua visibilidade nas produções historiográficas sobre a cidade pode ser reconhecida em outras fontes.

O futebol em Siderópolis foi um importante espaço para pensarmos as relações sociais, e também para pensarmos as experiências e trajetórias dos sujeitos afrodescendentes que fizeram parte da história do Itaúna Atlético Clube. É um espaço de visibilidade para esses sujeitos e para positivação enquanto sujeitos afrodescendentes em uma sociedade marcada pela hierarquização racial, pela desigualdade e invisibilidade desse grupo. É evidente que ser um jogador afrodescendente não resolvia todos os outros problemas causados pela discriminação racial, mas conferia um espaço de visibilidade onde era impossível serem negados, pois eram protagonistas evidenciados naqueles espaços, nem sempre tratados de maneira igualitária, mas vistos, lembrados e homenageados.

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