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O túnel da Ferrovia Tereza Cristina como patrimonio cultural de Siderópolis: Histórias, memorias e identidades

Macsuel De Bona* Marli de Oliveira Costa**

Resumo

Esse estudo aborda as “lendas urbanas” que surgiram em torno do túnel da Estrada de Ferro Tereza Cristina, em Siderópolis, SC, no intuito de percebê-las como expressão do patrimônio imaterial local. Para apresentar e discutir tais lendas, foi necessário mostrar o processo de construção do túnel, no período de consolidação das Atividades Carboníferas na região. A metodologia adotada foi a revisão de literatura pertinente, coleta de depoimentos de alguns moradores e pesquisa em jornais. As principais categorias utilizadas são: memória, identidade, patrimônio cultural material e imaterial e lendas urbanas. O túnel se apresenta como evocador de memórias e ativa a imaginação daqueles que habitam o seu entorno, provocando a elucidação de lendas que envolvem histórias de pessoas que morreram no local.

*  Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Acadêmico de especialização em História e Cidade: Patrimônio Cultural e Ambiental. Licenciado em História (maxdbhistoria@gmail.com).

** Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Professora orientadora. Mestre em História, Doutora em Educação (moc@unesc.net).

INTRODUÇÃO

O artigo trata das lendas urbanas criadas a partir do túnel da Ferrovia Tereza Cristina, situado em Siderópolis, SC. Esse túnel é uma das principais e mais marcantes estruturas construídas pela ferrovia no Município e tem se apresentado como evocador do imaginário popular, inspirando o surgimento de várias lendas, o que o tornou conhecido em toda a região como sendo um local “mal-assombrado”.

A Ferrovia foi construída em meio à crescente demanda da extração de carvão dos anos de 1940, com o objetivo de facilitar a escoação da produção do mineral do Município. O túnel garantiu o trajeto da Ferrovia por entre morros e foi um dos grandes empreendimentos gerados pela mineração no Município. Sua construção estava associada à difusão da ideia de “progresso” gerada pelo carvão. Assim, esses empreendimentos eram apresentados na época como sinônimo de modernidade, o que contribuiu para que o túnel também passasse a ser conhecido entre os simpatizantes desta ideia de “progresso” como “túnel do desenvolvimento”.

Este estudo discute a importância do local como patrimônio cultural da  cidade, por estar diretamente ligado a um período de profundas transformações econômicas e culturais, geradas pelo crescimento das atividades carboníferas desenvolvidas na região a partir do final do Século XIX.

O objetivo é compreender as lendas para além dos acontecimentos que contribuíram para a construção do túnel, no sentido de identificar elementos e valores culturais em seu conteúdo, classificando-os como patrimônio imaterial local.

Para alcançar tal objetivo, foram necessários estudos bibliográficos em torno dos conceitos de história, memória e patrimônio cultural. Na tentativa de compreender o contexto que contribuiu para a criação dessas lendas, também foi necessário revisitar a história das atividades carboníferas no estado de Santa Catarina, observando os impactos culturais e ambientais causados pela mineração na cidade de Siderópolis.

Na pesquisa a respeito das lendas, utilizaram-se relatos encontrados em sites, jornais, documentários, audiovisual e alguns depoimentos. A escolha do tema está ligada ao fato de que, quando eu era criança, ouvi muitas histórias de assombrações a respeito do túnel, lendas e causos espetaculares que desafiavam as leis da natureza e habitavam o imaginário popular das pessoas.

Na tentativa de “resgatar” essas lendas, fui em busca de narradores, para que me recontassem tais lendas, mas, para minha surpresa, esses pareciam já não dominar a arte de narrar as fantásticas histórias que povoavam minha imaginação de menino; é como se já não tivessem mais a necessidade de reafirmar tais narrativas, limitavam-se a se lembrar, de forma vaga, de trechos centrais de cada lenda. A memória muitas vezes se apresenta de forma vaga, telescópica, mostrando indícios de outros tempos, mesmo que a materialidade desses “outros” tempos seja uma história de “assombração”.

Diante das dificuldades em obter narrativas detalhadas, como as que eu ouvia quando criança, tentei provocar um dos entrevistados a recordar com minúcias algumas daquelas histórias para que eu pudesse identificar, analisar e preservar as lendas. Mais uma vez surgiram dificuldades, visto que o narrador limitou-se a relatar de forma genérica o conteúdo de algumas lendas, citando de forma bem resumida partes de cada história, como a lenda do fantasma que teria aparecido em uma fotografia, o caso dos supostos ossos humanos encontrados no local e sobre os corpos que teriam sido enterrados no concreto da obra ou nas redondezas, questões que abordarei no decorrer desse texto.

1  UM TÚNEL EM NOVA BELLUNO

Siderópolis, município situado no sul do estado de Santa Catarina, já foi terra habitada pelos povos Xokleng e recebeu oficialmente sua primeira leva de imigrantes europeus oriundos da Itália em 18 de julho de 1891. Logo nas primeiras décadas do Século XX, a economia basicamente agrícola de subsistência implantada pelos imigrantes passou a perder espaço com a descoberta do carvão mineral e sua crescente exploração nas décadas seguintes, o que ocasionou grandes transformações econômicas e culturais na cidade.

A construção do túnel da Ferrovia Tereza Cristina no município, ao que tudo indica concluído em 1946, marcou o início de um importante capítulo na história econômica, social e cultural da cidade, que até então era um povoado pertencente à cidade de Urussanga, onde moravam, na grande maioria, imigrantes italianos.

Segundo Possoli (2008), foi a partir da intensificação da extração do carvão, logo nos primeiros anos da década de 1940, que Nova Belluno, como se chamava Siderópolis até 1943, começou a passar por uma série de transformações relacionadas à

sua economia, principalmente com a instalação de importantes empresas carboníferas, como a Companhia Siderúrgica Nacional – CSN:

Na década de 1940, uma onda de mudanças balançou e modificou as estruturas da Antiga Nova Belluno, era a chegada da Companhia Siderúrgica Nacional – CSN, era o espírito da modernidade industrial entrando na vida daqueles moradores e da calma localidade ainda em desenvolvimento (POSSOLI, 2008, p. 22).

Foi a partir da entrada do Brasil na segunda Guerra Mundial, posicionando-se contra a Itália, que a cidade precisou mudar de nome. Na época, o Município ainda era distrito de Urussanga. O nome Nova Belluno era uma homenagem dos imigrantes à província de Belluno na Itália. Então era preciso um novo nome, que representasse melhor o momento, segundo os interesses do governo brasileiro, que passou a reprimir a difusão da cultura italiana no país. Assim, o nome Siderópolis1 foi escolhido com o  objetivo de fazer referência à ideia do “futuro promissor” que a siderurgia reservava ao Município.

Foi com os investimentos no setor da mineração que o povoado começou a passar por diversas mudanças, não somente na economia, mas também na cultura local. Tais mudanças se deram principalmente com a chegada de um número elevado de novos habitantes, atraídos pela oferta de emprego, gerados pela extração de carvão em toda a região carbonífera.

Segundo Costa (1999), muitas pessoas vieram de regiões litorâneas e serranas de Santa Catarina, em busca de novas oportunidades nas empresas que extraíam carvão. Muitas vezes, o fato era visto com desconfiança pelos descendentes de imigrantes: “Não posso deixar passar despercebido que para os descendentes de imigrantes europeus a mineração pode ter representado a invasão do espaço que dispunham” (COSTA, 1999, p. 124).

A construção da Ferrovia e do túnel foi fundamental no processo de inserção de outras culturas no Município, pois além de empregar mão de obra local, também trouxe para Siderópolis trabalhadores de outros estados do Brasil, para a realização dos trabalhos  de  fixação  dos  trilhos  e  construção  do   túnel,  além  de  contribuir  para      o

1 Sider – afixo de origem grega (sidéros) que se refere a ferro; polis – afixo de origem grega (pólis) que se refere a cidade.

desenvolvimento das atividades carboníferas e facilitar a circulação de operários e comerciantes de vários lugares.

Figura 1 – Operários posam para foto durante os trabalhos de construção do túnel – data desconhecida.

Fonte: Do Autor.

Aos poucos, o vilarejo foi crescendo e é possível supor que, se por um lado a chegada de novos habitantes causava certa desconfiança, por outro, o discurso de desenvolvimento e prosperidade tranquilizava muitos dos moradores.

Segundo Belolli, Quadros e Guidi (2002), foi com o crescimento do plano siderúrgico anunciado pelo presidente Getúlio Vargas no início da década de 1940 que o setor carbonífero catarinense passou a receber forte incentivo para o aumento da produção de carvão. No cenário nacional, houve aumento da demanda do minério, essencial para garantir o funcionamento da usina de Volta Redonda, no Rio de Janeiro. O governo passou a ter dificuldades com a importação de carvão devido a impasses  gerados pelos conflitos da Segunda Grande Guerra, o que levou Vargas a baixar o decreto n.º 6.771, de 07 de agosto de 1944, garantindo a compra de toda a produção de carvão para consumo interno.

Tal ação gerou um aumento significativo na produção de carvão do Município, expondo os primeiros problemas de infraestrutura, relacionados à escoação da produção. De acordo com Dassi (2011), devido às más condições das estradas, até então, toda a produção de carvão era escoada do centro da cidade por carros de boi, até o bairro de Nossa Senhora da Saúde. O trajeto de subidas íngremes em uma extensão aproximada de três quilômetros certamente dificultava muito o percurso; de lá, o carvão seguia de caminhão para o Rio Caité, no município vizinho de Urussanga. Esse modo de transporte certamente se tornava arcaico à medida que a ideia de modernidade surgia, impulsionada pela crescente extração de carvão que ajudou a viabilizar a possibilidade da malha ferroviária chegar ao Município.

Segundo informações do Jornal da Manhã do dia 11 de março de 2008, a construção de um novo ramal da ferrovia, incluindo um túnel, foi aprovada pelo decreto federal n.º 10.764, de 31 de outubro de 1942, sendo que esse novo ramal derivou do km 112 no bairro Pinheirinho, em Criciúma, estendendo-se por 12,4 mil metros até chegar a Siderópolis. As obras iniciaram em 1943, tendo sido concluídas três anos depois.

Assim, todo esse processo de transformação econômica ocasionada pelo aumento da produção de carvão em Santa Catarina gerou uma série de mudanças na economia e cultura do município de Siderópolis, e é justamente a partir dessas mudanças que surge o objeto deste estudo: a construção do túnel e os impactos que ele causou na cultura do Município, no que diz respeito às elaborações de lendas em torno desse espaço.

1.1 A CONSTRUÇÃO DO TÚNEL

A responsável pelas obras de construção do túnel foi a extinta Cia.  Construtora e Importadora Brasília Ltda. – SOCIMBRA, do Rio de Janeiro, e segundo informações do site Estação Capixaba (2015), teve como engenheiro chefe Luiz Serafim Derenzi, um renomado engenheiro capixaba que tem no currículo a execução do projeto do Parque Nacional do Iguaçu no Paraná.

A obra atravessa o morro onde se localiza a comunidade de Santa Luzia, permitindo a ligação por trilhos do centro da cidade de Siderópolis ao bairro Rio Patrimônio,  possuindo,  segundo  o  site  da  Ferrovia  Tereza  Cristina,  388,45  metros de

comprimento. Foi construída com a finalidade de facilitar o trajeto das locomotivas que evacuam a produção de carvão das minas do Município, tendo sido utilizada também por trens de passageiros, segundo Teixeira (2004). A ausência ou a dificuldade em encontrar documentos relacionados à sua construção é o principal obstáculo nos trabalhos de pesquisa sobre o assunto. Muito do que se sabe a respeito da obra são informações recolhidas por meio de entrevistas realizadas com pessoas que trabalharam na construção e que estão registradas em jornais impressos e virtuais, ou informações contidas nas lendas que se propagam pela cidade. Essas, porém, variam de acordo com a narrativa.

Levando em consideração essas dificuldades, escrever a respeito do túnel da Ferrovia Tereza Cristina em Siderópolis é sempre um desafio, visto que fatos e lendas se misturam e o ar de mistério quase sempre prevalece, a começar pelo ano de inauguração da obra.

A data mais aceita entre a população e alguns autores remete ao ano de 1944  e se justifica pelo fato dessa data estar gravada em uma espécie de placa de concreto em alto relevo, localizada na parte superior de uma das bocas de entrada do túnel, o que sugere que esse seja o ano de conclusão da obra. No entanto essa pode ser uma interpretação equivocada. Sabe-se, segundo estudos bibliográficos, que a obra teve início em 1943, sendo muito pouco provável que em um ano estivessem concluídos os trabalhos

de perfuração da montanha, concretagem das bases laterais e a colocação dos blocos de junta seca que formam o arco pleno2. Mas o que sugere o ano “1944” então? Uma hipótese, é que a data possa ter sido gravada em menção ao ano em que foi iniciada a concretagem da obra, supondo que tenha começado pelo lado voltado ao centro da cidade, onde o ano está gravado.

Na parte superior da extremidade oposta, ou seja, na boca de entrada voltada para o bairro Rio Patrimônio, também existe uma placa de concreto em relevo, esta, porém, com a ausência de qualquer inscrição. Podemos imaginar que ali seria gravado o ano de conclusão da obra, também sendo possível que tenha sido gravado e  desaparecido pela ação do tempo.

2 Tipo de arco composto por blocos usado na construção do Túnel, nos quais a parte superior ou teto é formado por um semicírculo apoiado nas extremidades laterais.

Em entrevista registrada por Dalsasso (2009), Alberto Brunel diz ter  trabalhado na construção do túnel desde o início e faz a seguinte afirmação: “Foram dois anos de muito trabalho…”, dando a entender que a obra teria sido concluída em 1945, considerando o início em 1943. Existe ainda a possibilidade de a inauguração ter ocorrido em 1946, como também afirmam Siqueira e Souza Paraco (1989), coincidindo assim com o ano de conclusão do ramal que chegou a Siderópolis.

Figura 2 – As duas extremidades do túnel, à esquerda, o lado voltado para o centro de Siderópolis, à direita, o lado voltado para o bairro Rio Patrimônio.

Fonte: Do Autor

Questões aparentemente simples como essas, são apenas uma amostra de alguns dos fatores que tem contribuído para o surgimento de vários mistérios  envolvendo o local, já que a ausência de informações “oficiais” dá margem ao surgimento de histórias populares. No entanto a construção da Ferrovia e consequentemente do túnel parece ter contribuído para a formação de uma nova identidade cultural, visto que marcam um período de difusão da ideia de progresso e modernidade, figurando inclusive como símbolos desse período de mudanças econômicas e culturais geradas pela extração de carvão no Município.

A fim de expor um pouco das transformações ocasionadas pela intensificação da extração de carvão no Município, o Jornal “O Lingote” faz uma colocação a respeito  do contexto econômico de Siderópolis antes da chegada da Ferrovia que ajuda a compreender um pouco melhor esse processo:

Quando os técnicos da CSN começaram a intensificar os estudos para o aproveitamento da maior bacia carbonífera do sul do país, lá pelos meados de 1942, Siderópolis ainda não existia como unidade territorial no mapa catarinense. O ponto de referência era Beluno, passagem e   pouso

quase obrigatório dos engenheiros que iam planejar a exploração das jazidas de carvão de Santa Catarina. Lugarejo típico das zonas de colonização italiana, onde predomina o regime da pequena propriedade  e onde as atividades agrícolas, embora não enriqueçam, dão para viver com decência e dignidade (JORNAL O LINGOTE, 1955, p. 3).

Foi a partir da conclusão do Túnel e da chegada da malha ferroviária que Siderópolis, do ponto de vista econômico proposto pelas mineradoras da época, passou a crescer em ritmo frenético, tendo em menos de duas décadas se emancipado do município de Urussanga, em 1958. O povoado deixou então de ter sua economia baseada na agricultura, dando lugar à cidade industrializada, composta por uma nova forma de organização habitacional, como as vilas operárias que foram construídas para abrigar trabalhadores da mineração.

Certamente foram momentos de insegurança para grande parte da população de Siderópolis, que aos poucos se viu tomada por trabalhadores vindos de outras regiões, primeiro para trabalhar na construção da Ferrovia e do túnel e, posteriormente, em número ainda maior, quando famílias inteiras migravam para a cidade em busca de oportunidades de emprego nas minas de carvão.

Como veremos mais adiante, a figura do operário do túnel sempre foi, de certa forma, marginalizada. Segundo relatos, foi construído na cidade um abrigo para esses operários, muitos dos quais vinham de outros estados trazidos pela empresa responsável pelas obras, o que causava certa desconfiança entre os moradores locais. Ainda hoje correm entre a população boatos de que muitos desses trabalhadores eram assassinos ou ladrões foragidos de seus estados, gente sem expectativa econômica, que se viam obrigados a aceitar aquele trabalho duro e baixos salários.

Quanto aos operários do carvão, de certa forma, é possível supor que também causassem desconfiança entre a população. Curiosamente e certamente motivado por todo esse processo de mudanças, o Padre Agenor Neves Marques faz o seguinte registro no livro tombo da igreja de Siderópolis, acusando o clima de insegurança por parte da população:

Às 20 horas de hoje um grupo de operários que tiveram parte no chamado levante comunista, que trouxe a Siderópolis uma companhia de Soldados do 14 BC de Florianópolis consulta se podem chegar-se livremente aos sacramentos, alegando não serem comunistas como todo

mundo comenta e afirma. Através da linguagem simples, sincera e leal desses homens capacitou-se o Vigário de que, em verdade, aqui comunistas não eram, nem são os homens simples do carvão. Obtendo resposta afirmativa retirou-se contentes e certos de que alguém os compreendeu… E fizeram parte da Páscoa. O Vigário da Paróquia, aproveita do ensejo dessas linhas para deixar registrado aqui essa verdade, que não deixara passar a história a calúnia ao operário ordeiro e trabalhador: Não há operários comunistas em Siderópolis!… (IGREJA MATRIZ DE SIDERÓPOLIS, 1947).

Vale lembrar que estamos falando de um período em que os comunistas eram perseguidos pelo governo e discriminados por grande parte da população, sendo essa uma acusação considerada grave para a época.

Aos poucos, Siderópolis, impulsionada pela economia e cultura gerada pelo carvão, começou a ganhar novos traços em sua arquitetura e a receber novas tradições e costumes, em um processo que o autor Canclini (1997) chama de hibridação intercultural ou culturas híbridas, sendo que cada cultura busca afirmar sua condição, com manifestações arquitetônicas que expressem poder dentro de uma simbologia urbana contemporânea: “Em processos revolucionários com ampla participação popular, os ritos multitudinários e as construções monumentais expressam o impulso histórico de movimentos de massa” (CANCLINI, 1997, p. 5).

Um exemplo desse processo de disputas por “espaços de afirmação” foi a troca do padroeiro São João Batista escolhido pelos imigrantes italianos por Nossa Senhora Aparecida, não por acaso padroeira do Brasil. E posteriormente a derrubada da antiga igreja matriz construída pelos imigrantes para a construção de uma nova, muito maior e com outras tendências arquitetônicas, o que, de acordo com Possoli (2008), causou comoção entre a população.

Certamente, todos os investimentos gerados pelo carvão refletiram em “disputas” de espaços de destaque na cidade com outras manifestações culturais, principalmente com a cultura italiana, que também passou a ser fortemente reprimida pelo governo federal, após a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Assim, era preciso dar nova cara ao Município, algo que expressasse melhor aquele momento, propagar a ideia de progresso e torná-lo presente de maneira visível para a população.

Logo nos primeiros anos da década de 1940, as primeiras vilas operárias expandiam  o  perímetro  de  ocupação  humana  e  modificavam  o  padrão  visual  das

residências adotada pelos primeiros imigrantes italianos. A partir da década de 1950, a Companhia Siderúrgica Nacional – CSN instala no Município “modernas” construções, como oficinas mecânicas, escritórios, ambulatório, estádio de futebol, escolas e, entre outros, o Clube Recreio do Trabalhador, além de trazer para a cidade, em 1961, a maior draga até então exportada pelos Estados Unidos para exploração de carvão em minas de céu aberto: a Marion 780.

Lamentavelmente, de todo esse conjunto de construções que integram o acervo arquitetônico cultural, que expressa esse período de transformações da cidade de Siderópolis, muito pouco permanece em pé, em sua forma original ou recebe algum tipo de cuidado.

Figura 3 – Vila operária localizada no bairro Rio Fiorita, Siderópolis, vista parcial das primeiras casas construídas pela CSN em 1944.

Fonte: Acervo particular de Rogério Dalsasso.

2  AS RELAÇÕES DA CIDADE COM SEU PATRIMÔNIO
CULTURAL

Historicamente, Siderópolis não tem tradições ligadas à valorização de seu patrimônio cultural, ao contrário, salvo algumas exceções, o que vemos pela cidade é o total descaso como: casas centenárias de imigrantes que foram ao chão pela ação do tempo ou mesmo desabadas pela ação clandestina de seus proprietários, que não viam nelas algo atrativo e valor econômico. Não podemos ainda nos esquecer de que os tristes exemplos da primeira igreja matriz do Município, construída por imigrantes nos primeiros anos da década de 1900 e demolida com a construção de uma nova, além de outras construções que ainda agonizam sem a devida    atenção, como é o caso do Clube Recreio

do Trabalhador, situado na Vila Operária de Rio Fiorita. Esse era um luxuoso clube que contava com salão de baile, cinema, bar e sala de jogos, construído no final da década de 1950 pela CSN, no auge do que muitos chamam a década de ouro do carvão. Tal construção, mesmo tombada por lei municipal, encontra-se em total abandono, tendo parte de seu salão principal vindo ao chão.

Figura 4 – Clube Recreio do Trabalhador foi mais uma das grandes obras realizadas pela CSN em Siderópolis e que se encontra praticamente em ruínas.

Fonte: Do Autor.

É nesse contexto que o túnel tem aparecido de maneira aparentemente despretensiosa, figurando como um dos bens culturais mais valorizados da cidade, não por parte do poder público, que nunca direcionou a ele sua devida importância para a memória e cultura da cidade, mas por grande parte da população que se sente identificada com a construção e todas as lendas que a envolvem.

Mesmo não estando diretamente ligado à história dos imigrantes, o que tem sido algo exaltado na busca da afirmação de patrimônios que identifiquem as cidades, e estando diretamente ligado à história do carvão, que embora tenha gerado crescimento econômico para Siderópolis, deixou na cidade um enorme legado de poluição ambiental. O túnel tem figurado como um dos locais mais lembrados pela população do Município, mas  por  que  será?  A  beleza  no  entorno  do  local  aliado  à  arquitetura  da  obra  e       a

proximidade com o centro da cidade podem ser algumas das justificativas, mas acredita- se que não seja a principal delas.

O que tornou ou tem tornado o túnel tão  presente na cultura popular  pode ser o seu potencial de se manter presente e atual no cotidiano da cidade no decorrer de todo esse tempo, desde sua construção. Primeiro, surgindo como um dos símbolos da ideia de progresso e modernidade, um projeto audacioso e fantástico para a época, certamente algo memorável para as pessoas desse período, mas também se apresentando para alguns como uma “ameaça” à tranquilidade local e à identificação cultural da cidade até então. É essa disputa de afirmação cultural que nos leva a um segundo momento, que também pode ter contribuído nesse processo, que é quando “histórias de assombração” começaram a circular entre a população. Mesmo que de alguma forma essas histórias tenham maculado a imagem do local, elas também contribuíram para mantê-lo presente no imaginário popular por mais algumas gerações, não como símbolo de modernidade, mas como local de temor a ser evitado.

Por fim, todos esses acontecimentos parecem se unir e somar para o surgimento de um novo momento nesse ciclo de transformação cultural, desta vez sem disputas ideológicas em torno do espaço. Pois se é possível supor que, a partir da construção da Ferrovia e do túnel, Siderópolis passou por uma miscigenação cultural que acaba por “dividir espaço” com a cultura italiana, hoje longe de ser um divisor de águas desse processo, o túnel como ícone da Ferrovia parece ter se tornado um elo de identificação e aproximação dos descendentes dessas culturas, vindo ao encontro da reflexão de Halbwachs (1990) de que a memória coletiva é a base para a construção de uma identidade. Porém talvez seja essa identificação um dos motivos pelos quais as lendas do túnel têm, de certa forma, desaparecido das narrativas populares, pois se hoje  o túnel já não é considerado local de afirmação de uma única cultura, já não se torna necessário rebaixar sua imagem com histórias de assombrações, se é que esse fosse o motivo do surgimento dessas histórias.

A consolidação desse espaço como parte da identidade local parece também contrariar o fato de que quase sempre a afirmação do patrimônio cultural é determinada por uma classe dominante, como afirma Rodrigues ([201-], p. 4): “É o conjunto de símbolos sacralizados, no sentido religioso e ideológico, que um grupo, normalmente a elite,   política,   científica,   econômica   e   religiosa,   decide   preservar   como patrimônio

coletivo”, visto que nasce de maneira aparentemente espontânea entre a população,  sem que isso seja imposto de alguma maneira.

3  PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL: AS LENDAS NO IMÁGINARIO POPULAR

Acompanhando o contexto histórico da cidade de Siderópolis, antes e depois da chegada da Ferrovia e consequente construção do túnel na cidade, pode-se concluir que o túnel representa um ícone do transporte do carvão e da ideia de progresso, modernidade e desenvolvimento econômico que foi amplamente difundida nas décadas da exploração do minério.

Muito além da imponente construção e de seus traços arquitetônicos que,  sem sombra de dúvidas, representam um importante bem cultural material do Município, o túnel também teve o “poder” de mexer com o imaginário popular, inspirando o surgimento de várias lendas igualmente valiosas, que representam uma das identidades culturais no campo imaterial do Município e da memória e cultura do carvão do estado de Santa Catarina, enquadrando-se aos conceitos de patrimônio cultural defendido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN:

Os bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais  ou lúdicas; e nos lugares (como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas) (BRASIL, 2014, p. 1).

Logo as lendas do túnel compõem um acervo referente à cultura de Siderópolis por exporem experiências, conceitos, práticas e crenças de parte da população, mas que sem a devida atenção também correm o risco de serem esquecidas como tantos outros bens culturais.

Se à primeira vista pode parecer estranho que histórias fantásticas a respeito de assombrações como as contadas pelas lendas do túnel, ou outras espalhadas pelo Brasil, possam ter valor reconhecido pela academia, no sentido do reconhecimento dessas narrativas, por identificar traços importantes de uma cultura, com um pouco mais de atenção é possível relacionar essas lendas à história e à identidade de um local ou de um determinado povo, assim como afirma Carvalho Neto Terceiro ([200-], p. 4):

No Brasil, país de maioria católica, as histórias populares vão de encontro com a religião cristã. O povo coloca muito da sua crença nas histórias populares ou lendas e isso foi gradativamente enriquecido pelas culturas que aqui se homogeneizaram como a cultura africana e a indígena.

Nas lendas em torno do túnel não é diferente: à medida que, juntando as  peças desse misterioso quebra-cabeça, cada informação passa a ganhar um sentido. Assim, é possível observar que as histórias trazem em seu conteúdo muito das práticas e crenças de seu povo, encaixando-se também no que conhecemos como lendas urbanas.

Segundo Dion (2008), o termo “lendas urbanas” é relativamente novo, tendo se originado entre as décadas de 1970 e 1980 entre folcloristas americanos, para designar anedotas da vida moderna que eram contadas como verdades. Essas lendas geralmente têm sua origem por meio de informações não confirmadas, quase sempre com procedência anônima, consequentemente duvidosa, e que são passadas de geração para geração por meio oral. No entanto longe de serem histórias insignificantes, as lendas urbanas podem trazer em si uma mensagem em seu conteúdo que revela detalhes acerca dos costumes e valores éticos de determinada sociedade.

O fato de as lendas serem transmitidas de forma oral traz à tona ainda questões discutidas por Benjamin (1985) em seu famoso texto “O Narrador”, em que o autor alerta para o conteúdo “subliminar’’ das narrativas, que tendem a ser expostas segundo os valores considerados importantes pelo narrador, as interpretações da forma de narrar sugeridas pelo autor podem perfeitamente se aplicar ao conteúdo das lendas  do túnel:

Tudo isso esclarece a natureza da verdadeira narrativa. Ela tem sempre em si às vezes de formar (sic) latente, uma dimensão utilitária, essa utilidade pode consistir seja num ensinamento, seja numa sugestão prática, seja num provérbio ou numa norma de vida – de qualquer forma o narrador é alguém que sabe dar conselhos (BENJAMIN, 1985, p. 200).

Dar conselhos parece mesmo ser um dos principais objetivos das lendas urbanas; conselhos esses sempre relacionados à moral ou a conceitos defendidos pelo narrador. Tomemos como exemplo prático uma velha lenda muito conhecida entre os católicos: da menina que resolveu ir a um baile na Sexta-feira Santa e que, tendo encontrado um rapaz com quem dançou, ficou horrorizada ao perceber que o moço possuía cascos em lugar dos pés, semelhantes aos de um boi. É possível observar no

conteúdo dessa lenda a forte influência das tradições católicas, considerando que a Sexta-feira Santa é um dia sagrado do calendário cristão. Certamente a história é uma forma de reprimir ou desencorajar uma conduta supostamente pecaminosa, expondo as possíveis consequências do ato, já que a mensagem parece um nítido alerta a quem resolve “burlar” as tradições religiosas, correndo assim o risco de se deparar com o que a lenda sugere ser o capeta.

4  ALGUMAS DAS LENDAS DO TÚNEL E SUAS RELAÇÕES COM O CONTEXTO DA CIDADE

Voltando ao túnel e suas lendas, também é possível observar nas histórias relacionadas ao local a utilização de fenômenos de assombração, o que também revela um apelo às crenças religiosas, quase sempre tendo como principais personagens ou inspiradores os operários que trabalharam na construção e principalmente os que teriam morrido durante as obras do túnel. Entre esses, estão inclusos até mesmo índios que teriam sido mortos nas redondezas e que foram citados em matéria do jornal Tribuna do Dia (2001, p. 05): “As lendas mais narradas são dos índios que morreram durante a construção do túnel”.

Vale lembrar que, na década de 1940, os povos Xokleng, que habitavam Siderópolis antes da chegada dos imigrantes europeus, já haviam sido expulsos e barbaramente dizimados em praticamente toda a região, sendo assim pouco provável (não impossível) que ainda se encontrassem nas redondezas do túnel. Mas de  onde surgiu essa lenda então? É possível supor que trabalhadores vindos do serviço de montagem de ferrovias em outras regiões tenham relatado por aqui histórias de índios em outras frentes de serviços e, com o passar do tempo, o tema tenha sofrido novas interpretações, referentes ao tempo e local dos fatos. Assim, essa lenda pode ter surgido a partir do que Pollak (1992) chama de memórias “vividas por tabela”, quando a memória coletiva de um povo ou grupo exerce tamanha influência que o indivíduo se sente detentor da experiência. Também é possível que o fato seja fruto da imaginação popular  e que a história dos índios assassinados possa ter sido mais uma tentativa de afirmar que os operários da estrada de ferro fossem perigosos, ou ainda, uma forma de tentar justificar o fato de o local ser supostamente assombrado por almas.

No entanto existe nas redondezas do túnel, quase às margens da Ferrovia, um misterioso buraco na montanha de arenito, parecido com uma furna, muito utilizadas por índios Xokleng. É possível sim que existissem índios no local, assim como existiram em toda a região antes da chegada da Ferrovia; o fato pode ter instigado a imaginação popular que acabou por contemporizar os índios com os trabalhadores do túnel.

Essa pequena caverna sem saída não poderia passar em branco no imaginário popular, sendo que também existem lendas afirmando que esse buraco tenha sido feito pelos operários do túnel para servir como abrigo, ou mesmo para enterrar os mortos.  Vale ressaltar que existia alojamento construído para esses trabalhadores, próximo ao canteiro de obras, e que nessa caverna cabem no máximo cinco ou seis pessoas agachadas.

Figura 5 – Pequena caverna localizada nas proximidades do túnel, a quem acredite que possam haver corpos enterrados ali.

Fonte: Do autor (2016).

A mesma matéria do Jornal Tribuna do Dia (2001, p. 5) já citada acima relata ainda: “Se perguntar a qualquer criança, a história que eles mais gostam é a da foto de  um homem sem cabeça, que foi tirada no local. O homem seria uma alma viva daqueles que morreram nos arredores do túnel’’.

Desde criança, escuto muitas destas histórias: assombrações, fantasmas, mistérios, mitos e lendas assustadoras eram assuntos sempre presentes nos tempos em que as pessoas da família se reuniam à noite apenas para conversar, ouvir e narrar histórias.

A respeito do túnel, se falava em ossos humanos encontrados nas redondezas ou dentro dos salva-vidas3, corpos humanos enterrados no concreto da construção, aparições de fantasmas, gritos, luzes, tudo sempre justificado pelo alto número de  mortes que teriam ocorrido no local. Segundo as lendas, as almas dos mortos inconformados passaram a habitar o túnel. O local úmido e escuro é mesmo bem propício para a criação desse tipo de história.

A riqueza de detalhes nas narrativas era sempre o ponto forte e principal aliado do narrador, na tentativa de justificar a veracidade dos fatos narrados. Das lendas que ouvi, uma sempre me chamou a atenção, já que supostamente teria uma prova muito além da narrativa e supostamente comprovava que o túnel era mesmo um local mal- assombrado; uma prova palpável, visível. E é apresentando essa lenda que me figuro no papel de narrador, interpretando e expondo a história que eu ouvia de minha mãe, de meus tios e avós maternos.

Diz a lenda que: certo domingo, uma família foi visitar o túnel a fim de fazer  um passeio e contemplar a beleza do ambiente e, de fato, os que ainda não conheciam ficaram encantados com o misto de beleza e medo que o local  proporciona. À medida  que iam se aproximando do túnel, os mais velhos relatavam aos mais novos histórias que tinham ouvido – diziam que ali haviam morrido muitos trabalhadores na construção, principalmente vítimas de desabamentos. Pessoas sem família que, muitas vezes, vinham foragidos de outros estados e que teriam sido enterrados como indigentes por ali mesmo, nas redondezas do túnel e até mesmo entre o concreto da construção. Assim, as almas desses operários, inconformados com a morte trágica e prematura, passaram a habitar o local. Por um momento, a tensão calou os ouvintes e, à medida que o grupo adentrava o túnel, o silêncio era quebrado pelo eco dos passos e pelo barulho constante das águas que escorriam entres as paredes sombrias e escuras do túnel, pingando no  chão úmido e causando arrepios em algumas pessoas do grupo. Cada novo ruído causado pela paisagem tornava o clima ainda mais tenso: e se fosse um fantasma? Também poderia ser o trem vindo, apesar de que geralmente ele não passa aos domingos, mas nunca se sabe; nesse caso seria preciso se refugiar em um dos salva-vidas, mas é ainda mais assustador lá, parece um caixão em meio à escuridão.

3 Salva-vidas são pequenos refúgios espalhados nas laterais do túnel, devem ser usados como medida de segurança caso o pedestre encontre o trem durante uma travessia.

Passada a tensão inicial, alguns ainda se mantinham atentos e com receio da possibilidade de se depararem com um fantasma, enquanto outros demostravam estar aparentemente indiferentes ao fato, dizendo não acreditarem naquelas histórias de assombração e se aproveitando daquele momento com brincadeiras, causando ruídos, reproduzindo gemidos, incitando o medo das outras pessoas, desrespeitando aquele local. “Não brinquem com essas coisas”, diziam os mais velhos. “Nada… isso não existe”, retrucou alguém, enquanto outros se amedrontavam e faziam o sinal da cruz como forma de defesa. E assim transcorria a visita ao túnel, até então como um passeio agradável e sem nenhum incidente, apesar da tensão causada pelo medo. Já no fim da visita ao local, alguém resolveu registrar o momento, convocando todos para uma foto em frente a uma das entradas do túnel e assim fizeram de forma descontraída. “Cuidado com o fantasma”, alguém gritou, mas, naquele momento, a sensação de segurança por estar do lado de  fora do túnel já não assustava nem mesmo os mais amedrontados.

Já de volta à casa, a família fazia planos de se reunir outra vez, como de costume aos domingos, assim, com todos juntos novamente, poderiam ver as fotos já reveladas do passeio e de outras ocasiões. E assim aguardaram todos ansiosos  para verem as fotos, ou se aquela pose tão esperada tinha sido bem enquadrada. Terminado o filme fotográfico, o responsável mandou revelar e em alguns dias já estava com as fotos embrulhadas num pacote em mãos. Reuniram-se as pessoas da casa e começaram, entre risos e desapontamentos, a observar as fotos, até que chegaram à foto em frente ao túnel. O registro tão esperado da família reunida guardava uma surpresa muito maior do que qualquer um podia imaginar. Por um momento, as pessoas se entreolharam incrédulas, em profundo silêncio, buscando entre si uma resposta, pois grande foi a surpresa e o espanto ao perceberem que na foto havia a presença de um homem desconhecido, que sequer tinha sido visto no local.

Questionado, o autor da foto disse não ter visto ninguém estranho no momento do registro, e o pior: alguns detalhes não deixavam dúvidas de que aquele não era mesmo um simples visitante que passava pelo local na hora do registro, já que as vestes e a aparência daquele homem denunciavam sua identidade. Era o fantasma de  um

dos operários que morreram na construção do túnel, ali registrado de forma  incontestável para quem quisesse ou tivesse a oportunidade de ver4.

Há quem diga que a aparição de um “fantasma” na foto possa ter sido ocasionada por uma falha na revelação do filme fotográfico, o que é comum acontecer, resultando em formas abstratas junto à imagem que não raramente são interpretadas como vultos por populares, porém acredito que a lenda não tenha nascido dessa forma, mas sim da “necessidade” de convencer as pessoas de que o túnel seja mesmo habitado por almas do outro mundo. O fato é que vários outros argumentos foram sendo usados no decorrer do tempo como forma de afirmação das lendas a respeito do local.

Nas histórias que eu ouvi, também me chamava a atenção uma pequena caverna já citada, feita na montanha de arenito nas redondezas do túnel. Sobre essa caverna também ouvi várias lendas, dessa vez narradas por membros de minha família paterna, as quais diziam que o buraco tinha sido feito pelos trabalhadores do túnel para enterrar os mortos, e a informação era justificada: “seu Fulano que trabalhou na construção disse que naquela época era tudo feito na pá e na picareta, a terra era tirada por carroças, os desmoronamentos eram constantes, muita gente morreu lá  soterrada”5.

Segundo a crença popular, muitas pessoas que não possuíam documento nem família conhecida eram enterradas ali mesmo, outros corpos teriam se perdido em meio ao concreto e outros teriam sido jogados na grota ou enterrados na caverna perto do túnel.

E para os incrédulos surgiam ainda mais “provas”, ouvi dizer por várias vezes que ossos foram vistos nas redondezas: “seu Fulano uma vez foi caçar ali por perto e contou que naquele morro do túnel encontrou uma caveira no meio do mato, com  certeza de alguém que morreu ali na construção”. Outros relatos davam conta de que ossos humanos também teriam sido encontrados dentro dos salva-vidas .

E, por incrível que pareça, a arte de narrar essas lendas se manifestava até mesmo nas crianças. Lembro-me de que, na escola primária, era comum que os professores(as) levassem seus alunos para visitar o local, pela importância que ele representa na história econômica de Siderópolis. Tenho a impressão de que, no fim da década de 1980 e meados da década de 1990, o túnel que sempre esteve muito   presente

4 A lenda e todas as falas são baseadas em histórias que ouvi durante minha infância. 5 A lenda e todas as falas são baseadas em histórias que ouvi durante minha infância.

na cultura da cidade, mexia ainda mais com o imaginário popular e estava muito mais presente em forma de lenda e histórias do que está hoje. Sendo que até mesmo alguns colegas do ensino primário relatavam ter ido ao túnel e encontrado ossos no riacho, e assim exaltavam sua coragem. Conforme eram contestados a respeito do fato, enriqueciam suas narrativas com detalhes, a fim de convencer os ouvintes: “Se vocês não acreditam, perguntem para o Beltrano, ele foi com a gente’’, justificavam. E não é que se fosse perguntar para o Beltrano, era bem capaz de ele confirmar o fato!6.

Mais uma vez, é possível observar que, no conteúdo dessas lendas, parece haver a tentativa de se “forjar” provas de que o túnel seja mesmo um local de temor, mal- assombrado e assustador. Assim, a suposta foto de um fantasma e os possíveis ossos humanos encontrados no local eram fatos expostos pelo narrador como “provas” da veracidade da história e afirmação das lendas.

Em entrevista, Neide Neotti (2016) relata já ter ouvido falar das lendas da foto e dos ossos humanos que teriam sido encontrados no local, afirmando, convicta de que na construção morreram muitas pessoas soterradas:

Assim eles contam, que eles bateram foto ali no túnel. Era o falecido Martinele, era uns dois ou três deles. E diz que lá era só eles, foram lá e bá… foram atravessar o túnel, e nessa eles quiseram bater uma foto e quando revelaram saiu a sombra de um homem atrás que não sabe quem era… Diz que uma vez o Libro foi descer ali o morro do túnel por cima, achou uma caveira, ele chutou aquela cabeça” (NEOTTI, 2016).

Esses ossos seriam, segundo Neotti (2016), de operários que morreram na construção e teriam sido, como descreve, “jogados na grota’’ ou enterrados por ali mesmo, nas redondezas ou entre o concreto da obra, fato esse nunca confirmado e que aparece em muitas outras lendas espalhadas pelo Brasil, lendas que, assim como nas histórias do túnel, afirmam que os operários que morriam eram enterrados no próprio concreto das obras, como é o caso dos relatos populares a respeito da Usina de Itaipu, no Paraná, e da Ponte Presidente Costa e Silva, mais conhecida como Ponte Rio–Niterói no Rio de Janeiro. Nos dois casos existe divergência entre pesquisadores do assunto quanto à veracidade dessa prática.

6 As falas são baseadas em relatos que eu ouvi de colegas do curso primário.

Com respeito à formação dessas e de outras lendas em torno do túnel, dois pontos chamam a atenção: primeiro, parece bastante comum encontrar nos relatos a respeito do assunto a tentativa de se marginalizar a figura dos operários, principalmente os que vinham de outras regiões. Seja por medo, preconceito ou mesmo fundamentados por alguns acontecimentos, a figura do trabalhador do túnel quase sempre parece figurar como personagem assustador nas histórias e também são citadas por Dalssasso (2009) em seu texto:

Eram pessoas que segundo relatos, vinham de prisões, de locais distantes com costumes muito diferentes e por isso julgados e concebidos como malfeitores e perigosos, pessoas capazes de qualquer ato. A maioria deles era de raça negra, alguns com sotaque nordestino ou do interior paulista e isto era certa novidade para os colonos instalados em Nova Belluno, atual Siderópolis. Talvez essa fosse uma das razões da desconfiança das pessoas quando não conhecemos optamos por se reservar o direito de ficar no seu canto, meio desconfiado, até sentir que pode haver aproximação, até sentir que não é perigosa essa aproximação. E foram essas pessoas que praticamente invadiram Belluno. Mas o tempo mostrou que os moradores tinham certa razão  uma vez que ficamos sabendo de alguns casos de brigas em que pessoas foram mortas com facas ou revólver em brigas de bar (DALSASSO, 2009).

Por fim, também chama a atenção o fato das histórias surgirem a partir da ideia de que muitas pessoas teriam morrido no local, principalmente operários, vítimas de desmoronamentos. Assim, a questão é: afinal morreram pessoas durante as obras de construção do túnel, ou o fato seria mais uma “invenção” da imaginação popular? Em seu artigo, Carvalho Neto Terceiro ([200?], p. 5), afirma que: “nas lendas populares tudo se encaixa historicamente”, sendo assim, as lendas muitas vezes são baseadas e fundamentadas em acontecimentos históricos, ou na história do local. No caso do túnel, parece não ser diferente, já que existem relatos de acidentes fatais, porém com número relativamente baixo de mortes, se comparados ao que as lendas sugerem:

Foram dois anos de muito trabalho para abrir um espaço no interior da montanha pra passar os trilhos, eram 388,45 metros escavados e escorados com madeira e a precária tecnologia da época,  aliado, segundo ele ao pouco conhecimento de alguns capatazes, causou um acidente onde morreram duas pessoas. Para ele, o único acidente com morte, além do assassinato de um peão e como este não tinha documentos,   foi   enterrado  como  indigente,   o  cozinheiro  fugiu   e   o

assunto foi dado por encerrado pela polícia de Criciúma (DALSASSO, 2009).

Não foram encontrados registros em documento que comprovem os números e tais experiências, no entanto parece perfeitamente possível que as lendas do túnel tenham sido baseadas em acontecimentos, inclusive com a afirmação de que um operário tenha sido enterrado como indigente, porém não necessariamente nas redondezas do túnel.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Analisando o contexto envolvido na formação de várias lendas urbanas, não apenas as relacionadas ao túnel, é possível observar que o surgimento da maioria dessas histórias está, de alguma forma, relacionado à insegurança que muitas vezes o “algo novo” ou desconhecido causa na população, que busca de alguma forma argumentar  esse medo em narrativas que se baseiam em experiências, como forma de afirmação e convencimento.

É nessa linha de interpretação que podemos, por exemplo, aplicar ao surgimento de várias lendas urbanas, até mesmo na internet, como as inúmeras mensagens de alerta que têm se multiplicado em compartilhamentos pelas redes sociais. Lembro-me de algumas crenças que começaram a surgir após a rápida popularização dos aparelhos celulares, no início do Século XXI: postagens eletrônicas alertavam para o possível perigo de explosão ao se deixar aparelhos celulares próximos de geladeiras ou fornos micro-ondas, ou de falar ao celular estando ele conectado ao carregador; o fato teria, segundo os relatos, causado acidentes com várias pessoas. Assim como em várias outras, essas lendas parecem expressar muito mais um medo popular do que uma informação embasada em confirmações técnicas.

Mais recentemente, acompanhamos, em Criciúma, cidade vizinha a Siderópolis, a chegada de um grande número de imigrantes, dentre eles ganeses e haitianos, em um contexto que se assemelha, de certa forma, ao vivido em Siderópolis com a chegada de operários vindos de outros estados, para trabalhar na construção da Ferrovia e do túnel, a partir de 1943. É possível, nos dois casos, atribuir à insegurança da população local, que com certa resistência ao novo e de certa forma desconhecido, tem

criado lendas que justifiquem ou legitimem de alguma forma esse medo, como não sendo um medo “bobo” e sem fundamento. No caso do túnel, com as lendas já citadas acima, e no caso mais recente dos imigrantes ganeses e haitianos, histórias infundadas  começaram a rodar pela cidade e região, afirmando que esses grupos de pessoas  estariam se alimentando com carne de cachorro, tendo inclusive, segundo relatos, praticamente acabado com a população de cães abandonados de um bairro onde moravam. Informações desencontradas davam conta de que uma matéria teria saído em jornal afirmando a prática, ou que vários ossos de animais teriam sido encontrados no quintal de uma casa de imigrantes. O fato certamente incomodou e gerou o descontentamento de muita gente desinformada, e pior, possivelmente pode ter contribuído para o aumento do nível de rejeição desse grupo de imigrantes frente à população local. Mais uma vez, os fatos revelam a influência que as lendas  podem exercer nos conceitos de uma sociedade, algumas vezes zelando pelos costumes morais, por outras alimentando preconceitos infundados, que podem inclusive contribuir para a segregação étnica.

Embora a interpretação dessas lendas não seja algo fácil, por conter em suas narrativas muito do íntimo desconhecido de cada pessoa, seu conteúdo, mesmo que aparentemente duvidoso, sempre traz informações que podem auxiliar no estudo das relações humanas, sociais e culturais, como, por exemplo, a interpretação dos medos, práticas, crenças e religiosidades, que revelam muito dos traços, tradições e do cotidiano de cada sociedade e que, muitas vezes, não são relatadas ou registradas de forma tão direta, mas se manifestam em práticas que precisam ser identificadas, decifradas e também preservadas.

Assim como no caso dos bens culturais materiais, para os quais se tornam necessárias medidas de preservação, mantendo-se atenção ao perigo de que esses sucumbam ao descaso e deixem de existir materialmente, também precisamos, a partir da valorização de nossa cultura, preservar nossos bens imateriais, a fim de garantir o registro e sobrevivência de nossos costumes para as futuras gerações. Lemos (1981, p.

29) afirma que registrar é sinônimo de preservar: “Assim, preservar não é só guardar uma coisa, um objeto uma construção, um miolo histórico de uma grande cidade velha. Preservar também é gravar depoimentos, sons, músicas populares e eruditas”.

Quando me propus a estudar as histórias que envolvem o túnel, pensei inicialmente na importância de se preservar essas lendas, porém sem imaginar que elas já não estavam mais tão presentes nas memórias das pessoas, de quem eu ouvia esses relatos. Mas como em cada dificuldade se apresenta uma nova oportunidade, foi procurando formas de manter vivas essas lendas que, no desenrolar deste estudo, se tornou possível identificar prováveis motivações para o surgimento dessas histórias, traços “ocultos” de nossa cultura e até mesmo justificativas para o desaparecimento dessas lendas das narrativas populares, sendo essa ausência, também, um traço que revela a eterna metamorfose dos conceitos sociais.

Se por um lado a popularização das mídias eletrônicas tem favorecido a propagação de novas lendas via redes sociais, o relato de lendas fantásticas por meio de narrativas tem, como alerta Benjamin (1985), se perdido e, consequentemente, corremos o risco de perder muitas dessas histórias, com o problema crônico que tem se apresentado nas sociedades modernas, em que as pessoas já não têm paciência para ouvir histórias. Pior, corremos o risco de perder um elo de nossa identidade cultural, capaz de contribuir para a compreensão de nossas relações sociais.

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