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Siderópolis em umas e outras que ouvi, vi, ou vivi

VÂNIO JOÃO SAVI 

SIDERÓPOLIS EM UMAS E OUTRAS QUE OUVI, VI, OU VIVI 

2004

Vânio João Savi, mais conhecido por MANO, nasceu em Siderópolis – SC, onde iniciou seus estudos, seguindo a trajetória a seguir:

LANTERNA

 

Era uma noite quente de verão eu, ainda criança, mas já ajudando como atendente no balcão da venda enquanto aguardava os clientes, brincava com os insetos que caíam no chão quando vinham ao encontro da luz e do calor produzidos pelas lâmpadas.

Numa destas noites surge um cliente todo faceiro à procura de uma lanterna, pois estava sendo contratado como guarda de uma Companhia Carbonífera – ou, esclarecendo, seria vigia da CSN em Siderópolis.

O cristão analisa uma lanterna, verifica outra e escolhe uma terceira, esta bem mais potente, pois utilizava três pilhas, o que era uma grande novidade para a época. Recebe todas as instruções sobre o que é pólo positivo e  pólo negativo de uma pilha, instala uma por uma na lanterna, ilumina um canto, ilumina outro, foca o teto, o piso e conclui que aquela seria a ferramenta ideal. Desliga a lanterna e, não confiando no interruptor da mesma, dá um sopro sobre o vidro de proteção da lâmpada como se fosse apagar uma vela de cera, paga o produto que passaria a ser uma das suas ferramentas de trabalho e vai embora.

“Imaginem a reação do cara se um dia o interruptor vier a falhar e ele não conseguir desligar a lanterna no sopro”. 

 

PICOLÉ

 

O surgimento das sorveteiras revolucionou os costumes dos sideropolitanos. Aqueles monstruosos balcões frigoríficos, que dispunham em sua parte superior de um estrado para depósito de vidros de balas, pirulitos, caixas de chicletes e outras guloseimas, tinham também um depósito para refrigerar bebidas e água para fazer capilé, (lembram do capilé?), além de um outro compartimento para depósito dos picolés e sorvetes.    Estes dois últimos eram as vedetes dos saudosos tempos de criança, quando nas tardes quentes de verão, todos adoravam saborear um sorvete ou picolé, como também tomar banho na ‘Represa de Baixo’. Lembro-me de que o sorvete, tal qual nos dias de hoje era servido na casquinha, que na época chamávamos de copinho. Quanto aos picolés, estes não eram embalados em envelopes, como nos dias de hoje. Num belo dia, sol a pino, raios solares sendo absorvidos pelo preto da pirita, que servia de macadame para as estradas e que ajudava aquecer mais ainda,  apareceu um senhor, admirado com a novidade, comprou um picolé, provou, aprovou, e, sem contar tempo, pediu mais um para levar para a esposa, colocou-o no bolso e foi embora.

“Até hoje estou para saber a reação do coitado ao chegar em casa com a sensação de ter mijado na calça, e com um pauzinho no bolso”.

 

 

 

 

 

 

 

 

MÁQUINAS

 

A CSN, Companhia Siderúrgica Nacional, dispunha de várias máquinas e equipamentos para extração de carvão. Por ser uma Estatal Federal, estava sempre na vanguarda. Tinha a ‘Marion’, uma enorme draga para mineração a céu aberto que era utilizada nas minas de profundidades maiores; a ‘Pata’, para profundidades menores; a ‘Shower’ – que o pessoal chamava carinhosamente de ‘Xove’ espécie de pá carregadeira utilizada para abastecer os caminhões basculantes, responsáveis pelo transporte do carvão da mina até o lavador; o gafanhoto – equipamento que deve ter inspirado a escada rolante – utilizado no carregamento dos caminhões; a ‘Cardoca’, máquina de perfuração horizontal para abrir os nichos de instalação do material explosivo aplicado na detonação de rochas; a ‘Sonda’, máquina de perfuração vertical para localização dos veios de carvão e muitas outras máquinas para as mais diversas aplicações. Mas tinha uma que era o grande xodó da gurizada: a tal de ‘Maria Comprida’. Essa máquina era a responsável pela nivelação das estradas, e dispunha de duas rodas menores na dianteira e quatro maiores na traseira, sendo que essas quatro faziam a alegria da galera, que com uma baqueta, corria atrás da máquina batendo nas rodas, como se estivessem empurrando-as, e saia feliz por ter empurrado a Maria Comprida.

“Durante meu curso de engenharia, fiquei sabendo que a tal de Maria Comprida, que o operador chamava de Patrola, na real denomina-se Motoniveladora”

 

 

 

 

GUINDASTE

 

A infância numa vila de mineração, com certeza, influi muito na escolha da profissão de qualquer adolescente. Imaginem que na minha família os cinco irmãos homens graduaram-se em Engenharia, e, o que é mais importante, todos na UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina. É claro que a Marion, os tratores, os caminhões e as demais máquinas aplicadas na extração de carvão mineral tiveram influência na carreira de muitos sideropolitanos, mais especificamente nos fioritanos.

Deixando de lado a Marion, draga que ilustra a capa deste livreto e outras máquinas que eram utilizadas no dia a dia, vamos a um caso pitoresco que se passou com um guindaste de uma das Companhias Carboníferas que  atuava em Siderópolis e provavelmente pelo deslocamento que fez, era o único que existia em Santa Catarina na época. Segundo contam, um clube de futebol de Florianópolis estava instalando os refletores para iluminação de seu estádio e pediu o guindaste emprestado ou alugado, não sei em detalhes, só sei que este serviço se realizava em paralelo com as obras das arquibancadas que iam a todo vapor e, quando a última estrutura de sustentação dos refletores ficou de pé, o estádio já estava fechado, e o guindaste, encurralado lá dentro.

“O guindaste, que, pela sua estrutura, até então, era conhecido por mosquito elétrico, saiu de Siderópolis para ficar famoso na capital”.

 

 

 

 

 

 

 

BANDA

 

Naqueles tempos, era muito comum, durante os finais de semana, quando das festas de igreja, a apresentação de bandas musicais.

Próximo das barracas de roleta, bingo, pescaria, maçã do amor, entre outros, era armado um coreto, onde as bandas faziam suas apresentações, entretendo o pessoal presente na festa. Mas o que a gente mais gostava era do desfile de apresentação, quando as bandas desfilavam pelas ruas principais da cidade. Um certo dia, na festa da padroeira, veio uma banda, não sei se de Lauro Müller ou de Capivari; só sei que, no desfile, cada músico carregava nas costas, presa por dois grampos de roupa, a pauta para orientar o músico que vinha atrás. Orientava musicalmente, mas distraía-os quanto a obstáculos no caminho. Lembro-me bem que, na época, existiam no encontro da avenida Municipal com a Avenida Dom Orione, três ‘tartarugas’ – não aqueles répteis da família dos quelônios aquáticos, mas aquela espécie de cabeças de baianos que  dividiam as avenidas e serviam para orientar os motoristas que chegavam de Criciúma e, durante o desfile, o músico que tocava a tuba, atento à pauta, tropeçou numa destas tartarugas e foi parar no chão.

“A banda continuou o desfile, e o infeliz, mesmo no chão, para não perder o compasso, continuou soprando sua tuba, sem que os demais percebessem a peripécia do mesmo”.

 

 

 

 

 

 

SUTIÃ

 

Hoje em dia, qualquer manézinho entra numa loja de lingerie e compra roupas íntimas para a esposa, namorada, amiga, amante, ou seja lá o que for. Mas houve épocas em que a situação era diferente.

Estávamos cursando o primário, estudávamos no período matutino, passávamos as tardes atrás do balcão atendendo aos clientes. Num belo dia, combinamos eu e um amigo a divisão das tarefas, alternando-nos no atendimento aos clientes. Quando apontava nas esquinas da Rua 12 ou da Rua 14 um vivente, o da vez esfregava as mãos, ou fazia cara feia, dependendo do freguês, uma vez que a freguesia toda era super conhecida.

Certa tarde, apontou na Rua 14 uma colega de aula, que, dá para entender, tinha mais ou menos nossa idade. Entrou na venda e recebeu a tradicional pergunta:

– Pois não, desejas alguma coisa?

– Tens sutiã?

Ele, olhando para as paredes, puxou do balcão as caixas de calcinhas, anáguas, sutiãs e coisas do gênero e falou:

– Qual o número?

Foi um vermelhão total, ele, ela e eu, ninguém sabia onde meter a cara de vergonha, até que ela saiu com esta:

– Não sei, é para minha irmã, vou pedir para ela passar aqui amanhã.

“Não se faz necessário dizer que até hoje o sutiã não foi vendido”.

 

 

 

 

 

 

BANHA

 

Itaúna, segundo o Aurélio, é a designação comum de várias rochas negras como o basalto, provém do tupi ita pedra, e una preto.

Mas o importante da estória vem agora: o Itaúna havia contratado um pessoal de fora, que obviamente tinha outros costumes, muito diferentes dos nossos do Rio Fiorita. Eu, um gurizão cursando o primário, já conhecia algumas manhas de balcão, as quais havia aprendido com meu pai. Como se dizia na época, sabia fazer conta de balança e metro, ou seja, sabia calcular os valores referentes a mercadorias vendidas a granel, coisa muito comum na época. Com o passar do tempo, cheguei à conclusão que aquela matemática revolucionária não passava de cálculos com regra de três simples.

Certo dia apareceu na loja um desses novos contratados do clube, e fui atendê-lo.

– O que faltou?

– Me vê um quarto de quilo de banha.

Cara, se ele me pedisse 250 gramas de banha ou qualquer outra fração disponível no mostrador da balança, tudo bem, mas ‘um quarto de quilo’, foi demais para a minha cultura daqueles tempos. Fiz que atendi  e me mandei pela porta dos fundos.

“Até hoje não sei se alguém vendeu a banha, o que sei em detalhes é que aqueles morros da Marion nos fundos da venda foram pouco para mim”.

 

 

 

 

 

 

PAPEL

 

Dinheiro vivo era coisa rara. As compras normalmente eram feitas e marcadas no livro de fiado, ficando a contraprova registrada numa caderneta para acerto de contas no final do mês. Este era o procedimento normal, mas existiam aqueles clientes que não se interessavam pela caderneta; faziam suas compras, pediam para marcar, anotava-se no livro de fiado e tudo bem. Feitas as compras, os clientes pegavam suas aquisições e voltavam para casa, procedimento realizado com muita tranqüilidade e segurança, uma vez que havia confiança mútua, fazendo com que fosse comum sair de casa para fazer compras sem levar dinheiro em espécie, na realidade nem carteiras se usava (pra que documentos, se todos conheciam-se entre si e havia apenas um policial, o qual conhecia a todos?)

Voltando à venda a fiado, numa tarde qualquer, chegou ao armazém uma criança de aproximadamente 5 a 6 anos e fez o pedido:

– Tem papel higiênico?

Prontamente  foi-lhe entregue o papel, que ela pegou, saindo em disparada, quando, então foi-lhe feita a pergunta:

– É pra marcar?

Ela, já no último degrau da escada, inocentemente responde:

– Não, é para limpar o cu.

“Ainda bem que todos os clientes eram conhecidos, caso contrário ela levaria o papel de graça”.

 

 

 

 

BAILES

 

Saudades do American Night, do The Black Cats, do High Tension Danger, conjuntos que tiveram seu auge em Siderópolis nas décadas de 60 e 70. O American Night chegou a se apresentar na TV Piratini de Porto Alegre.  Naquela época, existiam, no Rio Fiorita, dois clubes, o Recreio do Trabalhador e o União Mineira, sendo que o Recreio, tradicionalmente, era o clube ‘dos brancos’ e o União era o clube ‘dos morenos’. Lembro que, no Recreio, o pessoal discriminava e não permitia que os morenos usufruíssem do clube, enquanto, no União, não tinha essa frescura, todos podiam entrar e se divertir. Na real, todo mundo era igual, porém os metidos a gostosos só freqüentavam o Recreio que era o clube da elite.

Numa ocasião, fui visitar uns parentes em Santana, e minha prima me convidou para irmos ao baile, que seria abrilhantado pelo famoso American Night, o melhor conjunto da época na região sul.

Quando chegamos lá, para mim, a surpresa foi grande: morenos e brancos  compartilhando a mesma fila para aquisição de ingresso – aquilo que hoje chamamos de convite. Estranhei e pensei cá comigo: ‘ainda bem que aqui não tem discriminação’.

“Surpresa maior foi quando entrei no salão: tinha um biombo no meio da pista de dança, o qual dividia morenos para um lado e brancos para outro”.

 

 

 

 

 

 

 

FUTEBOL

 

Bons tempos aqueles, quando Siderópolis era representado por equipes profissionais de futebol na LARM, a Liga Atlética da Região Mineira.

O Grêmio Esportivo Treviso representava Belluno, a sede do município, e o Itaúna Atlético Clube, representava o Rio Fiorita, a nossa querida Vila de Mineração.

A rivalidade era grande, para não dizer ferrenha. Nos dias de clássico – como se ouvia na Rádio Eldorado de Criciúma, o famoso Clássico da Montanha – a cobra fumava. Era um tal de ‘amigos, amigos, torcedores à parte’, ‘cada um por si e Deus por todos’, pois sabíamos que o ambulatório era muito pequeno para qualquer eventualidade e o hospital mais próximo era em Criciúma. Deixa estar que, num belo campeonato, haviam caído fora o Metropol, o Comerciário, o Próspera, o Atlético Operário, o Boa vista, o Barão do Rio Branco e o Ouro Negro, além de outros que não me lembro, ficando na final a dupla Itaúna e Treviso. Eram aproximadamente 40 minutos do segundo tempo e o placar 2 x 1 favorável ao Itaúna que precisava apenas de um empate. A estas alturas do campeonato, uns torcedores mais apaixonados puxaram seus tambores e tamborins, formaram uma charanga e o batuque começou. Nisto baixou um espírito nos jogadores do Treviso que em menos de cinco minutos fizeram dois gols, virando o placar, e conquistando o caneco.

“Nunca mais a charanga de pés-frios entrou no Estádio do Itaúna”.

 

 

 

 

ORAÇÃO

 

Primeiro ano primário. O puxa-saquismo imperava, a maioria queria a qualquer jeito agradar a professora. Se ela expirasse, em coro ouvia da classe o tradicional ‘saúde’. Se caísse um pedaço de giz no chão, era meio mundo querendo juntar. Em suma, quase ninguém prestava atenção às aulas, a maioria estava atenta aos gestos e imaginações da professora, para ser o primeiro a agradá-la. Havia os puxa-saco e os que viviam pendurados no saco – estas duas categorias disputavam as tarefas de agradar a professora. Relógio, na época, era artigo de luxo. Desfilar com um Lanco ou um Mondaine no pulso não era para qualquer um, tanto que nem a professora dispunha de um exemplar, mas, na turma, havia um colega abonado, o qual possuía a famosa máquina de registro de tempo, e a professora se balizava por ele. Um belo dia, nosso colega faltou à aula e a mestra, para poder controlar o horário das aulas, pediu para que um aluno fosse até a sala contígua e perguntasse as horas para a professora desta sala. O colega, que não entendeu direito que a pergunta era ‘que horas são?’, saiu correndo e, sem demora, regressou com a resposta:

– É o pai Nosso.

Com certeza deve ter perguntado: ‘que oração?’.

“Quis puxar no saco e se deu mal. É claro que a turma não deixou por menos, pegou no pé o que deu”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SEBO

 

Saudosos tempos aqueles em que as mercadorias eram comercializadas a granel. Vendia-se amendoim em litro, medido em latas de azeite; ‘crozena jacaré’, que nada mais era que o querosene, o qual era retirado da lata de 18 litros através de uma bombinha de folha-de-flandres;  salamonico, que hoje chamamos de sal amoníaco, e mais uma série de mercadorias que tinham  pronúncia própria no Fiorita. Muitas coisas comercializadas eram de produção caseira. Entre elas, lembro-me dos derivados de suínos.

Criava-se o leitão na pocilga, que chamávamos de chiqueiro – mas não tinha nada de chique, muito pelo contrário. Quando o animal estava criado, ia para o abate gerando lombo, pernil, costela e outros derivados,  como, por exemplo, o toucinho, que era picado para ser derretido, produzindo a banha, tendo como subproduto o torresmo. Voltando ao porco, mais especificamente à sua parte porca, os miúdos, a fressura e as tripas, estas, que gerariam o sabão, eram colocadas num carrinho de mão, formando uma carga de mais ou menos uns 50kg, e eram lavados no Rio Fiorita, onde o merdeiro, juntamente com os vermes, iam rio abaixo, e voltava-se com a carga limpa de, aproximadamente uns 15 kg, e então iam para o tacho, onde, a todo vapor eram misturadas com soda cáustica e sebo, resultando no sabão caseiro. Certa vez, teve quem foi num concorrente nosso comprar 20 kg de sebo e, ao pedir para o balconista, este, observando a lata onde o produto era armazenado e vendo que estava no final do estoque, responde:

– Olha, se der meio quilo é no pau.

“O cara se mandou e foi na nossa venda. Acho que até hoje não interpretou direito a informação do vendedor”.

FITA

 

Já falei do martírio que era vender sutiã e calcinha. A cena não passava de cliente olhando para a direita e vendedor para a esquerda, ou vice versa, e, é óbvio, o vermelhão tomando conta dos rostos e do ambiente. Roupas íntimas, na época, eram um tabu violento. Não dava outra: o sangue subia – e era sangue mesmo já que não conhecíamos adrenalina. Imaginem pedir para a cliente o número do sutiã, numa época em que o pior castigo na escola era sentar, lado a lado, menino e menina. O cara passava o resto do ano sendo chamado pelo nome da menina e a menina pelo nome do rapaz. Hoje, as coisa são diferentes: o pessoal conhece um pouco mais de eletromagnetismo, e sabe que cargas de sinais opostos se atraem e de sinais iguais se repelem. Criança nenhuma quer sentar ao lado de colegas de mesmo sexo em bancos escolares. E lembrar que, no ginásio, a escola não era mista.

Voltando à dificuldade de vender alguns artigos, para mim, outra coisa constrangedora era vender renda, fita, grega e bordado. Eu só distinguia a fita, pois conhecia a verde e amarela que era usada para amarrar o ‘diploma do primário’. Quando a cliente pedia um metro de qualquer outra coisa eu me dirigia para o balcão onde ficavam estes materiais, olhava para as paredes, assobiava e esperava ela escolher.

“Até hoje não sei diferenciar um do outro, renda, fita, grega e bordado pra mim é tudo a mesma coisa, sou nota zero em aviamentos”.

 

 

 

 

 

TREM

 

As aulas do período vespertino terminavam às 17h30. Às 18h00, tinha início a catequese para a primeira comunhão. O pessoal que estudava à tarde saía da aula e ia direto para a capela , enquanto a turma da manhã saía de casa lá pelas 16h00 para aproveitar o tempo brincando enquanto aguardava o horário. Cada brincadeira tinha sua época. Havia a temporada do pião, da bolinha de gude, do bilboquê – que o pessoal chamava de biloquê – de jogar bafo com figurinhas de jogadores, de jogar taco, de amarrar pedras nos besouros – que chamávamos de carocha – para que eles se arrombassem num extremo esforço sem conseguir sair do lugar – apenas viravam-se de pernas para o ar, e, aí, novamente, se arrombavam, pois não conseguiam voltar para a posição de batalha – e olhem que era o pessoal da catequese – imaginem as barbáries que eram feitas pelo pessoal que não estava na doutrina. Uma outra diversão, esta exclusiva do pessoal que estudava no período matutino, pois tinha horário marcado – 17h00 – era aguardar a passagem do trem carvoeiro para jogar pedras nos vagões, uma vez que pedra era o que não faltava – os dormentes eram quase que cobertos por brita. Numa dessas brincadeiras, um infeliz teve a infelicidade e acertar uma angulação especial entre  vagão e pedra, o que fez com que esta, que foi com velocidade ‘X’, voltasse com velocidade ‘X+Y’, atingindo-lhe a testa em cheio.

“Este nunca mais brincou de jogar pedras nos vagões. Também, após um nocaute desses, até eu desistiria da brincadeira”.

 

 

 

DESCONTO

 

Como diz um grande amigo meu: – O que é um primário bem feito.

Imaginem uma criança cursando o primário e ajudando no ganha-pão da família, trabalhando num armazém de secos e molhados. Obviamente eu não possuía grandes conhecimentos teóricos, mas tinha uma prática razoável. Porém, independentemente de qualquer coisa, acho que, algumas vezes, devo ter pesado a menor alguns quilos de gêneros que, necessariamente, exigiam um recipiente que facilitasse o transporte. Na época, não existiam estes mercados que nossos filhos conhecem hoje, e que quando surgiram chamávamos de peg-pag. Nem se faz necessário dizer que os produtos não vinham pré-embalados. Tudo era vendido a granel, pesado na hora, diante do freguês. Eu já conhecia umas manhas de como proceder diante de uma balança, como também executar os cálculos fracionários devidos, até que, num belo dia, me defrontei com um conflito de conceitos. Fui ensinado que deveria descontar o peso do vasilhame. Aula dada, matéria sabida. Quando alguém viesse com uma bolsa de lona comprar 5 kg de milho, eu descontava o peso da bolsa, ou seja, se a bolsa pesasse duzentos gramas, eu realmente descontava, e cravava na balança 4,8 Kg. Esclarecendo, inocentemente eu pesava 400g a menos, 200g da bolsa, mais o 200g que havia descontado.

Tudo se esclareceu quando um cliente veio com um colorex e pediu meio quilo de banha.

“Considerando que o colorex pesava 600 gramas, tive que raciocinar, pois a balança não tinha escala negativa”.

 

 

PERCENTAGEM

 

Estudante do terceiro ou quarto ano do primário,              – traduzindo para os dias de hoje, aluno da terceira ou quarta série do ensino fundamental – já conhecia um pouco de matemática, dominava as quatro operações fundamentais e sabia de cor e salteado a tabuada. Fazer contas era comigo mesmo, tanto que graduei-me engenheiro devido à destreza que sempre tive com os números. Certo dia, apareceu na venda a minha professora, que foi prontamente atendida pelo meu saudoso pai. Lembro-me que ela escolheu um esmalte, não o sintético, uma vez que na época usava-se tinta a óleo, mas sim esmalte para unhas e, como de costume, o chorinho era livre e de lei; e ela não deixou por menos: pediu um desconto. Meu pai, com toda a gentileza, querendo agradar a professora e levar a público suas qualidades e seu potencial na transmissão de  conhecimentos aos alunos, me chamou para que eu aplicasse um desconto de 10%. Nestas alturas do campeonato, eu já devia ter aprendido regra de três simples e composta, porém, como diz o ditado: ‘na prática, a teoria é outra’.

O desconto saiu porque meu pai fez as contas.

“Na real, ensebei o que deu, pois nem eu nem a professora tínhamos a prática dos cálculo – éramos simplesmente teóricos”.

 

 

 

 

 

 

 

 

JEEP

 

Jeep, veículo fabricado a pedido do exército americano para utilização na Segunda Guerra Mundial, cujo nome deriva da pronuncia inglesa das iniciais de General Purpose (G e P, ou seja, DGI-PI, em português, jipi), veículo que me atormentou na infância.

Caminhões FNM a gente via direto pelas ruas do Fiorita. Havia aqueles que diziam que as iniciais de Fábrica Nacional de Motores, significavam Feliz Natal Manoel, como também os mais saídos, que baixavam o nível e interpretavam o famoso FNM como sendo F… Novamente o Motorista. Estes caminhões circulavam o dia inteiro para cima e para baixo transportando carvão bruto da mina para o lavador, e carvão lavado para a caixa de carregamento dos vagões do trem. Os caminhões faziam a alegria da rafoagem. Os Jeep também. Mas, para mim, só os alaranjados, cor característica dos veículos da CSN – se fosse cinza, a situação complicava. O problema era o trauma de seringa e agulha – um dos farmacêuticos da cidade tinha um Jeep dessa cor.

Quando pintava um Jeep cinza nas esquinas da Rua 12 ou da Rua 14, os morros da Marion ficavam pequenos era um sobe-e-desce que não acabava mais.

“ Melhoral e cibalena até que dava para suportar, mas injeção até hoje tenho trauma, tanto que fiz engenharia”.

 

 

 

 

 

 

 

 

COQUELUCHE

 

Segundo o Aurélio, em seu dicionário da língua portuguesa, versão eletrônica – século XXI, coqueluche tem o seguinte significado: ‘doença infecciosa aguda, produzida por bactéria, altamente contagiosa, peculiar à infância, e que, lesando o aparelho respiratório, se manifesta por acesso de tosse violenta; tosse convulsiva, tosse comprida’. É óbvio que, no meu tempo de criança, não conhecia nenhum desses termos – acho que nem mesmo tinha ouvido este palavrão: coqueluche. Doenças que pegavam na molecada eram sarampo, varíola e catapora – estas eu me lembro pois todos os anos fazíamos fila desde o Grupo Escolar Dr. Tullo Cavallazi até o ambulatório para aplicação de vacinas. Recordo-me dos medrosos que, ao cruzarem sobre o Rio Fiorita, na saída do colégio, ficavam no aguardo de descuidos dos professores para se esconder debaixo da ponte, fugindo assim das picadas das agulhas.

Houve uma época em que se temia muito um surto de coqueluche, que o pessoal corriqueiramente chamava de tosse comprida. Mas, para mim, que tinha uns 8 anos, numa época em que não existia TV e eu não ouvia o Repórter Esso, se havia proliferação de doenças ou não, eu não estava nem aí. Só lembro que, numa tarde, fui jogar pião na casa de um amigo e, chegando lá, a mãe dele me perguntou:

– O teu irmãozinho já teve tosse comprida?

Eu, que não entendi bem a pergunta e nem sequer sabia do que se tratava – estava interessado mesmo em jogar pião – respondi:

– Não, só pijama.

“Afinal, naquela época crianças normalmente usavam  calça curta”.

 

BICICLETA

 

Nos velhos tempos de moleque, um dos grandes sonhos era ter uma bicicleta, e a da moda era a Monark Barra Circular. Nos dias de hoje encontramos bicicletas em qualquer loja, mas, nos velhos tempos, tínhamos que ir a Criciúma e pagar a peso de ouro, ou aguardar um caixeiro viajante da Mesbla de Porto Alegre, mais o despacho via transportadora.

Veio o viajante, mas o dinheiro estava curto e não foi desta vez que ganhei a bike.

Como diz o ditado: ‘quem espera sempre alcança’.

Um cliente não muito chegado a cumprir com suas obrigações mudou-se de Siderópolis para Laguna, deixando um débito na venda. Depois de algumas cartinhas intimando-o a acertar as contas, chegou o fatídico dia em que ele respondeu que poderia liquidar a dívida enviando uma bicicleta como forma de pagamento. Trato feito, trato aceito. Fui informado que ganharia uma bike, a qual viria de trem e deveria ser retirada na Estação Ferroviária do Fiorita. No dia estipulado fui cedo para a estação. Depois da descarga de uns 3 vagões de açúcar, apareceu uma velha bicicleta verde, surrada pelo tempo e pela maresia. A decepção maior foi quanto a marca, pois esperava uma Monark e veio uma Gallo. Pior ainda foi quando cheguei em casa com a magrela nas mãos, pois havia furado um pneu, ou melhor, a câmara de ar, e, ao retirá-la para o devido conserto, contei nada mais nada menos que dezenove remendos.

“Estava colorida de michelin, não tinha mais espaço para outro remendo”.

 

 

 

 

BARQUINHOS

 

Naquele ano, o colégio não comportou todos as matrículas, e, como só existia o telefone da Siderúrgica em todo o Fiorita, ninguém ficou sabendo com antecedência, portanto todos os matriculados foram às aulas. Saí cedinho, na pasta um lápis, uma borracha e um caderno de oito folhas, o que, por incrível que pareça, foi o suficiente para o ano todo.

Feita a seleção pelos professores, veio a explicação:

Como não há salas suficientes para todos os matriculados, aqueles do 1º ano que fizerem aniversário a partir do mês de maio, voltem para casa e peçam para a mãe matricular novamente no próximo ano. Para uns foi uma festa, para outros, choradeira, mas a decisão estava tomada, e eu, que pertencia à turma dos excluídos por não ter nascido antes de maio, recolhi minhas tralhas e voltei para casa. Em um dia na escola, há quem ache que não se aprende nada. Muito pelo contrário, aprendi e bastante, tanto que gastei o caderno todo. Quando cheguei na ponte do Rio Fiorita, encontrei um pessoal que se encontrava na mesma situação que eu – aulas, só no ano seguinte. Este pessoal estava sobre a ponte soltando barquinhos de papel, acompanhando-os até a primeira curva do rio. Peguei as instruções e virei um expert em barquinhos. Gastei todas as folhas do caderno, inclusive a capa – foi uma diversão e tanto.

“O situação ficou preta quando chequei em casa: Levei uns puxões de orelha. Também, na época não existia o Estatuto da Criança e do Adolescente”.

 

 

 

 

 

BANDEIRA

 

É muita moleza para a rapaziada nos dias de hoje: aulas de segunda a sexta, fora passeios, trilhas, gincanas, conselho de classe, passeata ecológica, visita a museus, olimpíadas do colégio, e mais uma série de eventos para matar aulas. Nos velhos idos, as aulas eram de segunda a sexta, no período matutino ou vespertino, e aos sábados das 07h30 às 09h30 para a primeira turma e das 10h00 às 12h00 para a segunda, sendo que o intervalo era dedicado ao hasteamento da bandeira, com direito a Hino Nacional e tudo mais. Todos sabíamos o Hino Nacional de cor – não éramos como a maioria dos jogadores de futebol de hoje, que, para disfarçar a falta de conhecimento da letra de Joaquim Osório Duque Estrada, ficam mascando chicletes para enganar a torcida. Cantar o Hino Nacional enquanto a bandeira estava sendo hasteada e cantar o Hino à Bandeira enquanto estava sendo descerrada, tudo bem, agora, ficar lá frente da multidão segurando a bandeira, aí era demais. Num sábado que coube à nossa turma hastear o verde louro da nossa flâmula, a maldita da cordinha que puxava a bandeira ao topo do mastro havia desaparecido. Não tinha como montar uma operação de guerra e colocar uma nova corda na roldana instalada no topo do mastro. Ficou decidido que os dois alunos mais altos da turma ficariam lá na frente segurando a bandeira enquanto transcorriam o tradicional cerimonial das manhãs de sábado. Uma das vítimas escolhidas para a operação fui eu. Não preciso dizer que no momento da indicação troquei de cor três vezes.

“Enquanto a turma se deslocava em fila indiana para o pátio do colégio, a professora deu bandeira e eu dei no pé. Até hoje estou para segurar abandeira”.

 

 

ZÍPER

 

Tem aquela história do cara que foi levar a filha ao colégio. Chegando lá, a diretora, que costumeiramente aguardava os alunos no portão de entrada, observou a distração do pai e falou.

– O senhor está com o zíper aberto.

O cara, portador de um carregado sotaque italiano, era dono de um Jeep. Não entendendo a informação, respondeu:

– Eu não, pois hoje vim de Fusca.

Esquecendo a estória do Jeep e entrando na do zíper, lembro-me de uma cliente fioritana que tinha parentes em Criciúma e, quando de suas visitas  voltava com neologismos, ou melhor, com as novas denominações dos produtos de mercado, e aproveitava para dar aquela esnobada. Na época, vendíamos um produto corriqueiramente conhecido por reco, aquele negócio usado para substituir botões e, obviamente, o produto era conhecido por mim e por todos os fioritanos por este nome. Certo dia, chegou na venda esta cliente e pediu fecho ecler. Claro que foi para aparecer, pois no Fiorita a denominação reco era consagrada. Resolvidos os contratempos, o material foi vendido e mais um termo foi  inserido em minha gama de conhecimentos. Passados alguns meses volta a cliente e desta vez pede zíper. Mais uma vez a intenção foi esnobar conhecimento.

“Desta vez, perdi a esportiva e larguei o famoso chavão do Rui Barbosa: ‘Se pecas por ignorância perdou-te, mas se ousas desafiar…..’ ”.

 

 

 

 

 

FORMIGUEIRO

 

A molecada do Fiorita adorava uma caça de funda ou de gaiola no Mato Cesa, bater um futebol no Sobe-e-desce e no Serro da Vaca Magra, uma pescaria na Represa Velha, tomar banho no poço dos Três Coqueiros e quebrar galhos de eucalipto no reflorestamento que existia próximo ao potreiro que se situava nos fundos da Rua do Comércio. O potreiro era o ponto de encontro para todos estes passatempos, como também para um futebolzinho enquanto se aguardava o pessoal todo. Certa vez, estávamos no potreiro aguardando uns retardatários para um banho na Represa de Cima. Nisso, um dos presentes precisou fazer suas necessidades fisiológicas – para não dizer que queria cagar. Dirigiu-se para traz de uma moita e ali obrou. Como não tinha levado papel higiênico, resolveu a situação arrastando a bunda na grama. Deixa estar que neste arraste deslizou as nádegas sobre um formigueiro – não sei se saúva ou tanajura. Só lembro que saiu correndo pelado e aos berros com o saco roxo de picadas, jogou-se no pocinho que existia num canto do potreiro, fazendo com que o banho da geral fosse por ali mesmo.

“Nunca mais este saiu sem um pedaço de papel higiênico no bolso”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DESFILE

 

Duas tradições de 7 de setembro perseveraram por muito tempo em Siderópolis: a primeira e mais importante para as autoridades era o desfile cívico; a segunda e mais importante para a gurizada que desfilava era assistir a sessão de cinema, a “matineé”, que era grátis para todos os alunos que se apresentavam uniformizados ao porteiro do cinema. Não sei quem patrocinava, mas lembro bem que durante os anos de primário, a película sempre foi a mesma: Sansão, Hércules e Ulisses.

Para o pessoal do Fiorita, tinha uma diversão extra: aproveitávamos para irmos ao parque ao lado do Jardim de Infância das Freiras, onde desfrutávamos de escorregador, gangorra, balanço e outros brinquedos. Lembro-me de um 7 de setembro quando levantei-me cedo, vesti o uniforme e fui para o Grupo Escolar Dr. Tullo Cavalazzi, onde o ônibus, um velho FNM cor laranja da CSN, nos levaria para a praça, ou melhor, para o centro de Siderópolis, local do desfile. À tarde aprontei-me para ir ao  cinema vestindo meu terno da primeira comunhão – paletó e calça curta – que há muitos anos estava guardado. Após a sessão, fui para o parque e, na primeira descida no escorregador, abriu-se uma brecha na traseira da minha calça, que estava puída pelos anos de guarda-roupa.

“ Não quis nem saber, me diverti até cansar. Só na hora de ir embora fiz um Belluno – Fiorita à pé pelo trilho tapando com as mãos o rasgo na bunda da calça”.

 

 

 

 

 

 

PRESENTE

 

Namoradinha, naquela época, era coisa para ninguém saber, a não ser a própria. Quando um irmão sabia que a irmã estava de namorado, chovia chantagem, tais como ter que lavar a louça, varrer a casa ou outros afazeres domésticos, para que o fato não chegasse aos ouvidos dos pais. Entre os rapazes também havia chantagens, que geralmente eram resolvidas abaixo de ameaças de tapas, murros e ponta-pés. O dinheiro era curto, portanto presente era coisa rara, uma vez que mesada não existia, era um troquinho no dia da festa da padroeira e na festa junina do colégio. Voltando ao papo de namoradinha, certa vez, um colega ganhou de presente um corta-unhas  made in Paraguai, todo enfeitado, novidade na ocasião. O presente tornou-se um martírio: onde esconder o dito corta-unhas moderno, colorido, já que não podia ser usado, para que os amigos da onça não descobrissem a procedência e entregassem de bandeja? Como se desfazer da lembrancinha tendo motivo a alegar, caso um dia a namorada perguntasse pelo presente? Numa reunião dos colegas na beira da Represa Velha, surgiu a idéia de jogar o corta-unhas na água, e quem achasse-o no mergulho ficaria com ele para sempre.

“O corta-unhas, que, durante muitos anos, ficou submerso pela água, após a passagem da Marion, ficou soterrado ad eternun”.

 

 

 

 

 

 

 

 

PRENDA

 

Final de ano tinha a festa de São Donato e São Pio X no Seminário e, para preparar as barraquinhas,  os alunos iam pelas comunidade do interior pedir prendas em nome do colégio. A equipe que arrecadava o maior volume de prendas tinha um ponto na média. Num ano qualquer, coube à equipe na qual eu me incluía  pedir prendas no Montanhão. Fomos de casa em casa, onde dávamos as explicações a respeito do motivo do pedido, que era prontamente aceito pelos colonos. Nós, acostumados com o pessoal de Barro Branco que vinha no Rio Fiorita pedir prendas para a festa de São Benedito, quando era comum o pessoal do Fiorita contribuir com sabonete, creme dental, leite condensado e outras miudezas do gênero, pegamos, cada um, uma sacola, colocamos nas costas e fomos para o Montanhão. Na primeira casa visitada foi-nos ofertado um saco de amendoim, na segunda um porco vivo, e nós com uma sacolinha nas costas numa época em que não havia telefonia rural e muito menos celular. Voltamos para o seminário e informamos ao diretor que no Montanhão as prendas eram tamanho gigante e não dava para carregar nas costas. O diretor pegou o Jeep, pediu para que a equipe embarcasse e retornamos à coleta. Final da tarde, chegamos com o Jeep atopetado até o teto, além do reboque.

“Não se faz necessário dizer que alguns colegas passaram de ano graças aos colonos do Montanhão”.

 

 

 

 

 

 

MOTONIVELADORA

 

‘Lá vem a maria comprida, lá vem a maria comprida’. Este era o jargão usado pela gurizada quando observavam a aproximação da motoniveladora. Estávamos  no primário, portanto não conhecíamos detalhes dos fenômenos físicos e químicos. Mesmo assim, uma descoberta interessante foi observada quando a lâmina da motoniveladora ia rasgando o solo. Uma espécie de vapor brotava do interior do solo, provocado pelo aquecimento do sol e pelo atrito da lâmina, incentivando-nos a deitar-nos no chão para sermos envolvidos pelo calorzinho exalado e, de soslaio observarmos a chegada da motoniveladora que, no vai e vem, ia eliminando os buracos da estrada. O importante da brincadeira era a disputa para ver quem suportava mais tempo deitado, ou seja, quem era o mais corajoso, permanecendo no solo até a maior aproximação da máquina. Numa dessas, deu o inesperado, que na realidade, era a lógica, mas para quem estava acostumado a andar descalço, nem pensei em analisar as conseqüências. Estava inaugurando  chinelos novo, um par de sandálias Bahiana, (aquelas esponjosas e fedorentas) e não as legítimas Havaianas, quando, numa arrancada súbita devida à aproximação da máquina, perdi um pé do chinelo, o qual ficou soterrado ad eternun sob a terra removida pela lâmina da motoniveladora. Cheguei em casa e me compliquei todo na explicação do caso, que acabou ficando por uns puxões de orelhas.

“Até hoje minha mãe está para saber o que se passou. Só vai tomar conhecimento no dia que ler este causo”.

 

 

 

CANTINA

 

A cantina, famoso depósito de bebidas, era uma repartição de lei e sagrada para todo e qualquer proprietário de uma bodega, venda ou armazém de secos e molhados (não sei porque este nome, uma vez que tudo o que se comercializa num estabelecimento ou é seco ou é molhado).

Normalmente, a cantina não passava de um puxadinho localizado atrás do armazém, virado para o sul, de modo a ficar a maior parte do tempo escondida do sol para que os garrafões de vinho e cachaça tivessem o mínimo de variação de temperatura, conservando, assim, as características originais, ou, como dizia o pessoal, conservar o Néctar dos Deuses. Falando em deuses, teve o cara que, num belo dia, como represália pelas peraltices praticadas, passou a tarde de castigo, e, não sei se protegido por Baco ou Dioniso, foi trancado na cantina numa semana em que a mesma tinha sido reabastecida com vários garrafões de vinho tinto doce recém fabricado. Este castigo com certeza foi protegido pelos deuses do vinho. O cara entrou na cantina resmungando, enquanto lá fora os colegas zombavam da situação. O tempo foi passando e daí a uns 5 a 6 minutos, cessaram-se os resmungos no interior da cantina, e os lá de fora, que queriam zombar, puseram o rabinho entre as pernas e foram embora.

“Final da tarde, na hora da liberdade, a cantina foi aberta e nada de o cara sair. Estava entregue aos braços de Morfeu, num sono profundo, com a mangueira de engarrafamento na boca depois de ter tomado todas”.

 

 

 

CERCA

 

Como ditavam os costumes da época, nos fundos de casa, todos tinham um limoeiro, uma laranjeira – que, além das frutas dava folhas utilizadas nos chás para curar gripe – o quintal, onde se colhiam as verduras fresquinhas sem agrotóxico e aquele cantinho cercado para criação de galinhas.

Outro costume dos velhos idos era alternar as áreas dedicadas ao quintal com a de criação de galinha, uma vez que, da primeira, remanesciam restos de verduras, minhocas e ervas daninhas que serviriam para alimentar as galinhas, e, da segunda, restava o esterco , adubo natural que deixava a terra no ponto para o cultivo de verduras.

Tudo muito bem bolado, não fosse o problema de vez por quando ter que mudar as cercas de modo a demarcar as áreas conforme as necessidades específicas para cada época. Numa dessas mudanças, fui escalado para desmontar uma cerca de sarrafos de madeira, reaproveitando-os na nova cerca. Conhecia muito bem o martelo, pois usava-o constantemente na fabricação de brinquedos – já que, na época, não existiam vídeo game, celular, computador e internet – mas prumo e nível eram ferramentas para adulto. Gabarito, este, então, para mim, nem existia. Fiz a cerca, a qual não apresentou um único sarrafo no alinhamento horizontal, nem no vertical.

“Foi bucha, bateu a fiscalização, tive que desmontá-la e, após umas aulas de alinhamento e estética, refazê-la conforme o figurino, inclusive reaproveitando os pregos, que foram endireitados um a um”.

 

 

 

ROLETA

 

Era ponto pacífico. As festas em homenagem ao padroeiro, em cada uma das mais diversas comunidades sideropolitanas, eram o ponto de encontro do pessoal, onde colocavam-se as fofocas em dia, namorava-se, enfim, passava-se um dia diferente, e, obviamente, degustava-se o verdadeiro churrasco de igreja – aquele naco de carne espetado numa ripa de bambu, o qual era fincado no chão, e aí a faca deslizava, produzindo, aquelas deliciosas fatias, que eram saboreadas com pão de venda, para alegria dos colonos, que habitualmente comiam pão caseiro. O churrasco era importante não só para o pessoal que participava da festa, como também para os festeiros, por ser a fonte de renda para sustentar a capela durante todo o ano. Por serem essas festas as fontes de renda, não podemos esquecer de mencionar a pescaria, a barraca dos porquinhos da Índia – que, quando liberados, corriam em direção a uma casinha numerada indicando o número sorteado – e a roleta, que geralmente alternava o sorteio de uma galinha assada com o de um bolo caseiro. Numa destas, na hora do sorteio de uma galinha assada, o festeiro sai com esta:

– Vai correr a galinha.

Nisto, alguém que já tinha tomado todas e não havia conseguido um churrasco, retruca:

– Ma como que vai core a galinha? Ela non tá assada?

“Até hoje, não sei se ele interpretou a palavra correr ao pé da letra, ou se a reação foi o efeito da álcool”.

 

 

 

 

FIXO

 

A turma toda estava diante do Cine Belluno aguardando pela “matinê”, que, após estudar Francês, concluí que é a pronuncia de matineé, ou seja: tarde. Ouvindo aquelas repetidas músicas, as famosas chamadas para o cinema, como também a informação da película a ser exibida no dia, algumas homéricas,  ainda lembro:

– Não percam, hoje, no Cine Belluno: ‘O homem que matou o facinóra’ – (quando deveria ser ‘facínora’).

– Não percam, hoje, no Cine Belluno: ‘A ponte do Rio Que Vai’ – (quando deveria ser ‘Rio Kwai’).

– Hoje, sessão dupla no Cine Belluno: ‘Adeus Tonho’ e ‘Meu nome é Techas’ – (quando deveria ser  ‘Meu nome é Tonho’, e ‘Adeus Texas’)

Num belo dia, em pleno auge do movimento (que agora chamamos de ‘rush’), em frente ao cinema, surgiu, proveniente dos lados do Rio Jordão, um Jeep, do qual, numa confusão terrível, tiraram um senhor com indícios de ataque epilético. Levaram-no para a farmácia, enquanto ele, numa histeria total, distribuía socos e pontapés em todos que estavam lhe socorrendo, até que, a uma certa altura, o pessoal conseguiu imobilizá-lo. Nisto, um dos presentes larga esta pérola:

– Xánto, tu me conhexe?

E ele responde.

– Xim, é o xogro.

Retruca o primeiro, pedindo para que este se acalmasse, ficasse fixo:

– “Intom fica ficho, é”.

 

 

 

 

LINHA

 

O pessoal de idade mais avançada procurava a nossa venda, tendo em vista a facilidade de comunicação, uma vez que tínhamos uma grande vantagem diante de outros comerciantes: éramos bilíngües, (falávamos o ‘baiéco’ e o ‘talhano’).

Afora os negócios com lingerie, especificamente a venda de sutiã, já mencionada anteriormente, e fitas, rendas, gregas e bordados, o resto não tinha crise, estávamos lá para o que desse e viesse.

Um belo dia apareceu para fazer suas compras uma senhora de origem italiana que aparentava uns 90 anos. Pediu tantos metros de riscado para fazer calças para o velho, tantos metros de fazenda volta ao mundo para fazer camisas, e, lá pelas tantas, larga esta:

– Adesso un roquel de fil.

Pairou no ar uma dúvida: ‘o que esta mulher quer, meu Deus do céu?’.

Houve um silencio fúnebre, devido ao fato do pedido ter extrapolado o vocabulário das duas línguas até então conhecidas.

Mas a velha senhora não se deu por derrotada: esclareceu a situação dando esta tacada de mestre:

– Numbro quaranta

“No mesmo instante foi puxado do escaninho um carretel de linha branca Nº 40, e resolvida a situação”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ELÁSTICO

 

Outra muito boa aconteceu num dia em que estávamos  jogando conversa fora em frente à venda, quando, de repente, surge um senhor idoso, sotaque italiano carregado, desconfiado com nosso papo intercalado com umas gargalhadas, uma vez que estávamos passando o tempo, enquanto aguardávamos a clientela, com causos do cotidiano.

O velho senhor timidamente aproxima-se do balcão e faz o pedido do seguinte modo:

– Scusi tozzati, ghené mia ático de cachon?

Foi mais uma tacada de difícil tradução. Silêncio absoluto no recinto, quando alguém retrucou.

– Scusi, non ho capito, parla piú piano per favore.

– Ghené mia ático de cachon?

Mais uma vez a resposta, desta vez em português.

– Não entendi, fale mais devagar por favor.

Nisto, ele, utilizando-se daquela máxima: ‘quem tem boca vai a Roma’, desce um pouco o cós da sua calça e puxa o elástico do calção.

Situação resolvida; foi-lhe perguntado se queria elástico chato ou redondo, que na realidade seria de seção retangular ou circular, e a venda foi feita.

“A conclusão mais importante foi que, para ser balconista em Siderópolis, não se precisava ser poliglota”.

 

 

 

 

 

 

 

 

DOCE

 

Lá pelos idos de 60 ou 70, uma novidade que surgiu na mesa dos brasileiros foi o tal de doce de leite, o qual fazia a alegria de crianças e adultos, pois, até então, o doce que se usava no pão não passava da marmelada, que  muitas vezes nem era de marmelo, e sim de banana ou goiaba.

No início, o doce de leite vinha embalado em latões de aproximadamente 15 kg e era vendido a granel. Ainda bem que não existiam estes potes que nossos filhos conhecem hoje, porque o pessoal desconfiava muito das novidades e precisava fazer o teste São Tomé antes de comprar, e, num pote lacrado, a situação se complicaria.

A provinha era comum em tudo quanto é tipo de alimento. Havia até os que provavam aquelas sardinhas com 50% de sal, as quais vinham em latões e eram vendidas, como falava o pessoal, no picadinho, principalmente na semana santa.

Saindo do sal da sardinha e voltando ao doce do doce de leite, lembro que, certa vez, veio um pessoal da colônia e, admirado com a novidade, um dos componentes do grupo pediu para provar o então famoso doce. Dada a autorização, atascou o dedo no interior da lata, trazendo no indicador uns 200 gramas de doce, deu aquela lambida, e, em seguida, passou o dedão na boca da acompanhante, falando:

“Que bóno, proa anche lei”, ou seja, que gostoso, experimente você também, e nós ficamos no prejuízo”.

 

 

 

 

 

 

LAGARTIXA

 

Num balcão de venda, depois de umas e outras, sempre surgem assuntos os mais esdrúxulos possíveis. Lembro-me como se fosse hoje quando muitos operários, ao final do expediente – como se falava na época, horário de largar o serviço – antes de irem para casa, passavam pelas bodegas para tomar um trago, que, carinhosamente, era chamado de ‘liso’, ou ‘martelinho’ – nome caracterizado pelo formato do copo – onde uns preferiam a branquinha, outros a amarelinha; havia os que preferiam curtida no butiá, na losna, no mentruz, no agrião, no sassafrás, com limão ou outras especiarias. O importante mesmo era que, depois de umas e outras, esquecia-se o cansaço da labuta e a alegria vinha à tona, e que, por conseqüência, tinha início a narração de causos. Muitas vezes ouvi falar da ‘praga da 200’, uma draga que foi abandonada na mina; de ‘assombração no Cantão’, na estrada para Treviso; e muitos outros causos, pois cada um queria contar um mais exótico e esotérico que o outro.

Houve aquele dia em que apareceu, na parede da venda, uma lagartixa, coisa rara na região, porém muito conhecida pelo pessoal oriundo de beira-mar. Num átimo, alguém pegou uma vassoura para exterminar, dizimá-la antes que houvesse proliferação da raça.

Nisto alguém exclamou!

– É uma lagartixa, não faz mal a ninguém!

O exterminador respondeu:

“A largaticha é um bixo velenoso, acho que ela é meia parente do cambaleão”.

 

 

 

 

 

ADMISSÃO

 

Naquele tempo não se falava de ensino fundamental e ensino médio. A  divisão era: Primário, Ginásio e Normal ou Científico. Quando o cara estava cursando o 4º ano do primário, em paralelo fazia uma tal de Admissão, que nada mais era que uma preparação para o exame de admissão ao ginásio. O meu caso foi ‘sui generis’: além de fazer o 5º ano primário, fiz também a Admissão. As professoras desta tal de Admissão, via de regra, eram as mais conceituadas em suas respectivas escolas, e recebiam um troco em troca destas aulas. Como a mestra era remunerada, uma das grandes preocupações, numa época em que o estudo não era um mercenarismo  como nos dias de hoje, consistia em ver seus alunos aprovados e seguirem em frente nas classes ginasiais. Após o exame de Admissão para o Ginásio Dom Orione, hoje São Luiz Orione – nossa turma, uma turma mala, diga-se de passagem – foi recepcionada pela professora com a seguinte pergunta:

– Pessoal, como foi a prova?

Um por um, o pessoal foi respondendo: moleza, foi fácil, tranqüilo, tudo bem, até que chegou a minha vez. Troquei de cor, o sangue subiu, baixei a cabeça, e não dei resposta até hoje.

“A professora só ficou sabendo quando saiu a listagem: o único que passou em primeira chamada daquela turma fui eu”.

 

 

 

 

 

 

 

GEOGRAFIA

 

Aula de geografia, todos atentos – na realidade era um olho no quadro negro outro nas pernas da professora. Era comum, naquela época, haver a famosa argüição – aquilo que hoje o pessoal chama de teste relâmpago – e, não se faz necessário lembrar, era um dos piores momentos da aula, juntamente com aquela prática de alguns professores de solicitar que, um a um, cada aluno lesse um parágrafo do livro, para que o texto fosse, em seguida, analisado, interpretado e, consequentemente, considerado sabido. Numa dessas aulas a professora escalou uma seqüência lógica, de modo que cada aluno fizesse a leitura de cada parágrafo.

O assunto era sobre o Estado de Santa Catarina, mais especificamente, sobre a agricultura de nosso estado. A aula ia se desenrolando numa boa quando cai para um colega o texto com os seguintes dizeres: ‘Santa Catarina produz milho, arroz, feijão, tabaco…’.

O cara reage do seguinte modo:

– Santa Catarina produz milho, arroz, feijão…- neste momento o cristão respira fundo, olha para a direita, olha para a esquerda, surge o vermelhão no rosto e para matar a pau, joga no ar esta pérola:

– Santa Catarina produz milho, arroz, feijão, fumo

A turma não se conteve e caiu na gargalhada.

“ E claro que a emenda ficou pior que o soneto o vexame foi em dobro”.

 

 

 

 

 

 

 

RELIGIÃO

 

No ginásio, uma das grandes diversões era quando o professor faltava à aula. Aquelas roças do Seminário ficavam pequenas: a turma se mandava, cruzava o Rio Albina, o campo de futebol, a estrada de ferro – que era carinhosamente chamada de trilho – e se mandava pelas roças e matos morro acima e morro abaixo. Certo dia, numa aula de religião – matéria em que até os menos dedicados tiravam boas notas – o professor que também organizava as Filhas de Maria e o Coral da Capela do Fiorita, não apareceu no horário da aula. O pessoal aguardou uns 10 minutos e nada do mestre aparecer. Alguém teve a idéia de ir para a roça. Se a turma tivesse 50, 49 foram – afinal de contas, toda turma tem um CDF. O mestre chegou atrasado e, à medida que o pessoal ia chegando, o esculacho descia. Silêncio absoluto. Todos só pensando na nota que viria na caderneta – para o pessoal que não sabe do que se trata, é o que hoje chamamos de boletim. Neste meio tempo, o padre foi de casa em casa visitar as ‘Filhas de Maria’, e duas delas tinham irmãos que eram da turma e tinham ido pra roça. Na casa de cada uma delas, após o café, pegou a caderneta deles e cravou nota 10 em religião para os dois. Mas a listagem das notas já estava na secretaria, e indicava nota 4 para a turma toda. Quando recebemos a caderneta vazou a notícia das duas notas 10 e o bochincho foi grande.

“Coube aos que não tinham irmã Filha de Maria assumir o quatro para que o pai não soubesse da gazeada”.

 

 

 

 

DESENHO

 

Ginásio. Matéria: desenho. O livro era cheio de frescuras, desenhos geométricos cheio de tric-tric. Acho que uma das poucas utilizações foi inspirar alguns designers de azulejo, pois, de vez em quanto, encontro paredes com algumas figuras que lembram o livro-texto utilizado. Naqueles tempos, já existiam professores pra- frentex: não seguiam o livro ao pé da letra, utilizavam-se de dinâmicas que puxavam um pouco pela criatividade individual de cada aluno. Um belo dia, o mestre argumentou que o tema seria uma paisagem do interior de Siderópolis. O que mais se viu foi a velha e tradicional casinha de sítio, com aquele cercadinho acanhado, uma árvore ao lado e, no fundo, o sol brilhando. Como esta paisagem era muito manjada, o mestre botou pra quebrar: deu nota baixa a todos os que fizeram paisagem neste estilo, alegando falta de criatividade, e mostrou o trabalho nota10. Era o desenho de um engenho movido a água, onde a roda d’água tipo caçamba, ao invés de ser alimentada pela parte superior, de modo que o peso da água gerasse o movimento da roda, apresentava a canalização chegando por baixo, atingindo a parte posterior das caçambas – o que, no entender da turma, contrariava os conceitos da cinemática.

“A geral caiu de pau com esta criatividade, forçando o mestre a melhorar a nota da turma toda”.

 

 

 

 

 

 

 

 

INGLÊS

 

Língua inglesa era uma das novidades para o pessoal que entrava no ginásio. Para alguns não só era novidade como também um terror. O pessoal acostumado com língua nacional – que agora se chama Português – Aritmética – que passou a denominar-se Matemática – Conhecimentos Gerais – que hoje está dividido numa porrada de matérias – e, de repente, aparece o inglês para complicar a situação. Imaginem que, na primeira aula, um colega levantou o dedo e perguntou para o professor:

– Fessor, o que que é esse tal de boocone?

O mestre sem saber do que se tratava, pediu maiores detalhes e, após muito bate boca, ficou sabendo que a questão referia-se ao ‘Book One’.

Passado o espavento das primeiras aulas, todos já sabiam o que significavam no português, estas famosas e batidas frases:

– What is this?

– This is a book.

– Where is the book?

– The book is on the table.

Quando iniciaram-se as aulas que ensinavam a dizer as horas em inglês, já tínhamos back ground, conforme descrito acima, e todos queriam esnobar umas frases em inglês sempre que possível.

Num belo dia, um colega, querendo demonstrar sua destreza no inglês, ao passar pela praça, consulta um amigo com a seguinte pergunta?

– What time is it?

Ao que o outro prontamente responde:

– My name is fulano de tal.

“Ainda bem que o professor não estava por perto, porque seria com certeza zero na caderneta”.

 

FUSCA

 

Naqueles tempos, automóvel não era meio de transporte, era artigo de luxo, coisa pra quem pudesse , e não para quem quisesse. Mas sempre existiam aqueles que gostavam de dar um esnobada extra, e, entre estes, tinha os que, quando a situação financeira permitia, compravam seu Fusquinha, o carro popular da época. Ter um carro, tudo bem. Dirigi-lo para frente também. Agora fazer manobras não era pra qualquer um – a situação ficava um pouco mais complicada. O pessoal do quarto ano ginasial, num belo dia, descontentes com as notas da prova, não deixaram por menos: combinaram uma boa para o dia em que a professora viesse para a aula de Fusca. Chegou o fatídico dia, na hora do recreio, os mestres reunidos na sala dos professores enquanto a maioria dos alunos estavam no futebol, no ping-pong, no espirobol e outros divertimento. Para a turma do 4º ano, neste dia, o recreio foi diferente. Os malas da turma se reuniram, foram até o carro, e, num empurra-empurra, colocaram duas rodas do fusca sobre a calçada que não era das mais baixas, deixando as outras duas no estacionamento. O bafafá foi grande. Depois de muita confusão e nada de descobrir os autores da façanha, uns se prontificaram a acertar a posição do carro. Como recompensa, a professora deu uns pontinhos a mais na nota final de todos os que se prontificaram a ajudá-la.

“Não imaginou ela que foram os próprios voluntários os autores da façanha”.

 

 

 

 

 

 

ADENSAMENTO

 

No Seminário estava sendo construído um Ginásio de Esportes coberto, coisa inédita em cidades pequenas na década de 60. Imaginem vocês: exceto Criciúma, nenhuma cidade nos arredores possuía ginásio de esporte coberto. O padre responsável pela construção era esperto, precisava da ajuda dos alunos na construção, mais especificamente no adensamento do aterro que formaria o piso da quadra. Precisava de mão de obra barata, ou melhor, de graça, e bolou uma boa. Nos intervalos das aulas deixava três ou quatro bolas de futebol no interior da construção, e o pessoal saia a chutar bolas para todo quanto é lado, mesmo com as escoras atrapalhando. Isto durou tempo suficiente para que o pessoal enjoasse – afinal de contas, jogar futebol sobre um aterro no meio de escoras não era das melhores brincadeiras. O padre, verificando  baixo ibope no adensamento do aterro, bolou mais uma. Dez minutos antes do sinal, mandava o aviso de que teria banana para todos no recreio – era só se dirigir à construção do ginásio de esporte que teria um carro de bois cheio de cachos de bananas maduras à disposição de quem quisesse.

“Dizem as más-línguas que as bananas eram doadas pelos colonos, o que resultava em mão de obra grátis, ou melhor , no adensamento, eram pés de obra grátis”.

 

 

 

 

 

 

 

BOSTA

 

Nos velhos tempos de ginásio, era comum o pessoal inventar uma brincadeira nova para passar o recreio. Havia os passatempos tradicionais de qualquer escola: futebol, ping-pong – que hoje chamamos de tênis de mesa – espirobol – que é um esporte em extinção; só encontramo-lo em hotel fazenda. Com o passar dos dias, esses jogos tornavam-se enjoativos. Tudo isto era motivo para se pôr em prática a criatividade e inventar novas brincadeiras. Uma das brincadeiras que se tornou famosa foi a tal de ‘guerra de bosta seca’. Alguém teve essa infeliz idéia de passar o recreio brincando de guerra de bosta seca, aproveitando as fezes do gado que pastava e defecavam no campo do Seminário. Observem o aproveitamento: as fezes serviam de adubo para a grama, deixando o tapete verde, e esta grama servia de alimento para o gado, que, ao, ingeri-la, automaticamente fazia o papel de jardineiro no corte da grama, formando um ciclo que se fechava na mais perfeita harmonia. A brincadeira culminava na pulverização do adubo, pois, ao lançar a bosta seca no adversário, esta se espalhava e o serviço se completava. A brincadeira consistia em dois times, Fiorita contra Belluno, cada equipe num dos lados do campo, sendo que cada atleta juntava uma bosta seca e corria até a divisória do gamado, arremessando-a nos adversários, e voltava correndo em zig-zag, para se esquivar de uma bosta lançada por um adversário.

“A brincadeira vingou até o dia em que um fioritano pegou uma bosta ainda verde e acertou em cheio o líder da equipe de Belluno”.

 

 

 

DENTE

 

Cada um queria aprontar a sua durante as aulas, para infernizar a vida dos professores. Deixar frases indecentes no quadro negro – que agora é verde – deixar um espelhinho no chão na entrada da sala para ver a calcinha da professora, jogar bolinha de papel nos mestres, dar risadinhas para acabar com a concentração da galera, e muitas outras, todas com a finalidade de acabar com as aulas. Mas a que acabou com a aula foi a de um colega que possuía um pivô provisório, sendo que o pivô ao qual aqui me refiro é uma prótese dentária, e não um jogador de basquete, nem aquela peça usada como suporte de um eixo num mecanismo qualquer. O cristão teve a idéia de sacar o pivô, espetá-lo num palito e passar para o colega mais próximo, de modo que, de mão em mão, este dente circulasse por todos até fechar o circuito. O bonito da brincadeira era quando o dente chegava às mãos de um novo colega e este, de início, se espantava com a situação, mas, ao dar uma panorâmica pela sala, via a turma rindo e um com aquela cara de Seo Creyson, sem o incisivo ou o canino, não lembro, aí entrava no esquema, caía na gargalhada e passava o dente para o seguinte.

“A aula fluía pela perseverança do professor, mas ninguém estava nem aí com o tema do dia”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PLACAR

 

Já foi falado no Ginásio de Esportes coberto, na época, uma façanha para uma cidade do porte de Siderópolis. A redondeza toda queria jogar futebol de salão em Siderópolis, na quadra coberta do Dom Orione – afinal de contas, quem não queria ter no currículo um jogo em ginásio coberto? Outro fato inédito foi o placar eletrônico – na realidade era um placar elétrico, o ancestral que serviu de inspiração para os atuais painéis eletrônicos, que, além de informar o placar e o tempo de jogo, fazem marketing durante a partida. O placar, que era disposto no alto da quadra, atrás da trave, consistia em uma caixa de madeira onde eram instaladas 10 lâmpadas em disposição vertical, sendo que, da mesa, acionavam-se interruptores que acendiam lâmpadas seqüencialmente para cada gol marcado. Uma verdadeira revolução: quadra coberta e placar eletrônico, era demais para Siderópolis.

A coisa complicou no dia em que veio um time de Urussanga e levou uma goleada de 17 x 1, provocando  a saturação do placar. Até o décimo gol tudo bem. Quando saiu o décimo primeiro, o mesário foi à loucura, não sabia o que fazer. Idéias não faltaram: alguém sugeriu que, ao ultrapassar o décimo gol, todas as lâmpadas fossem apagadas, exceto a última, que indicaria o 10, a ser adicionada com as lâmpadas a serem novamente acesas  iniciando-se pela primeira.

“Cabia ao torcedor interpretar que devia fazer a soma para saber o placar do jogo”.

 

 

 

 

 

BIFE

 

Dezembro de 1970, formatura do Ginásio, e nossa turma até que era avançada para a época. Imaginem que, naquele tempo, o pessoal, quando se formava no Ginásio, sonhava em fazer uma excursão para conhecer Florianópolis,  sendo que, às vezes, o dinheiro arrecadado com rifas e outras promoções dava apenas para ir até Laguna e olhe lá. Quando a turma não tinha um bom líder, a excursão não passava do Jordão. Promovemos rifas e bingos e arrecadamos boró suficiente para irmos até o Rio de Janeiro, coisa que na época era uma façanha, verdadeira epopéia. Para se ter uma idéia da proeza, poucas turmas que se formavam no Colégio Normal em Criciúma  faziam uma viagem desta. Saímos cedinho de Siderópolis e, depois de alguns quilômetros, chegamos na BR 101, próximo a Tubarão, num trecho asfaltado. O motorista parou o ônibus para colocarmos as mãos no asfalto e fazer o teste São Tomé, já que o pessoal viajado dizia que o asfalto era liso que nem o vidro do balcão. Dois dias depois chegamos ao Rio de Janeiro, exaustos e famintos, deixamos nossas tralhas no Colégio da Divina Providência, tomamos um banho e fomos direto para um restaurante, coisa que para muitos foi a primeira vez na vida. Nisto um dos colegas trava o seguinte diálogo com o  garçom:

– O que vocês tem de bom?

– Temos o menu.

– Então me vê um menu com bife.

“O cara pensou em comer um ‘menu com bife’, pois até então não sabia que aquilo que conhecíamos por cardápio tinha um sinônimo afrancesado”.

 

 

CHARANGA

 

Nossa excursão de formatura do Ginásio, foi de arrebentar a boca do balão. Nada de Jordão, Laguna ou Floripa, fomos direto para o Rio de Janeiro, peripécia até então nunca alcançada por qualquer outra turma de Ginásio, e que serviu de iniciativa, virando rotina para as turmas seguintes, ainda mais que no Rio o pessoal tinha o Colégio da Divina Providência, um Colégio da Congregação de Dom Orione onde a turma tinha hospedagem de graça. Chegamos no Rio de Janeiro com uma lista de façanhas a cumprir, entre elas: conhecer Copacabana, o Planetário, o Jardim Botânico o Jardim Zoológico, a Biblioteca Nacional, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor e muitas outras atrações que só o Rio oferecia. Mas o grande sonho da geral era conhecer o Maracanã. Durante nossa estada no Rio, houve a decisão do Campeonato Roberto Gomes Pedrosa, equivalente, hoje, à Série “A” do Campeonato Nacional, e o jogo foi Fluminense x Palmeiras. Na turma havia um palmeirense, mas a maioria eram flamenguistas e vascainos. Porém, para conhecer o Maracanã, a gente se sujeitou a assistir qualquer jogo.

Ao chegarmos ao Maracanã, visualizamos, de longe, um pessoal de macacão verde com um tambor na altura da cintura, suspenso a tiracolo. Foi quando o palmeirense exclamou:

– Pessoal, olha lá a charanga do Palmeiras!

A maioria saiu correndo para apreciar a charanga.

“Ao chegarem perto, perceberam que era o pessoal uniformizado que vendia chá mate, costume que até hoje existe no Maracanã.”

 

 

 

BRUCUTU

 

Tínhamos um professor no ginásio que era ferrador de montão, arroxava nas provas, e deixava a galera apavorada. A sorte estava no fato de o cara adorar teatro, o que viabilizou a idéia de fazermos apresentações para melhorar a média mensal. Todo mundo pegou junto: imaginem chegar em casa no final do mês com uma nota vermelha na caderneta. A geral se reunia para escrever a peça, montar cenário e ensaiar bem ensaiado, porque, se desse vexame, a nota piorava. Não existia a figura do ponto, aquele soprador que, na eventualidade de dar um branco  num dos atores, auxiliava lendo o texto em voz baixa, dando condições para que o autor prosseguisse  uma vez que, se partisse para o improviso, podia dar adeus à peça – a decoreba era tal que ninguém mais se encontrava no contexto. O texto tinha que estar na ponta da língua, e, para que não falhasse, o pessoal partia para uma leitura individual, depois fazia treinos em conjunto e por fim fazia um ensaio andando de bicicleta, de modo a dificultar a leitura, para, após esta maratona, partir para o ensaio propriamente dito. Na época, estava na crista da onda a ‘Jovem Guarda’, o que inspirou uma das equipes a preparar uma peça que simulava a apresentação de um conjunto musical, utilizando-se de guitarra de madeira, bateria de latas e violão de brinquedo para cantar o ‘Olha o brucutu’. Um dos participantes, que era magro e um tanto desengonçado, apresentou um rebolado esquisito, o qual levou a platéia ao delírio.

“Até hoje o cara carrega o estigma: alguns colegas ainda o chamam de bruto cu”.

 

 

 

 

ENCENAÇÃO

 

Saudosos tempos da AJUS – Associação Juventude Unida de Siderópolis. Após a missa de sábado à noite, era de lei a juventude sideropolitana se reunir para um bate papo, um joguinho de dominó, programar um jogo de vôlei, fazer uma caridade, além de muitas outras atividades de interesse da comunidade. Numa dessas reuniões, foi programada a encenação da Via Sacra para a Sexta-Feira Santa. Iniciaram-se os preparativos com a escolha dos atores. É claro que a maioria queria fazer o papel de Jesus, sendo que ninguém queria fazer o papel de Judas Iscariotis. Depois de muita discussão, ficaram definidos todos os papéis, sendo incumbidos fulano, beltrano, sicrano e floriano… para representarem Jesus, Simão Cirineu, Judas Iscariotis, o bom e o mal ladrão, os soldados do rei e mais um monte de figurantes. Transcorria a encenação, o povo todo no maior silencio e completa emoção, quando um soldado, que simulava estar pregando o Cristo na cruz, errou a martelada artística e acertou em cheio os dedos daquele que fazia o papel de Cristo. Este, fulo da vida, desprezou a importância do papel que representava, não vacilou e, no mesmo instante, gritou:

-Ai, seu fdp!

“Terminada a encenação, chegou-se a conclusão que, mesmo após árduas reuniões, os papéis não foram bem distribuídos”

 

 

 

 

 

 

 

CAGAÇO

 

Científico. O regresso da aula era um misto de prazer e tortura. Prazer por ser o horário de voltar para a terrinha, e tortura por ser a hora da fome. Nós, encurralados no ônibus, sentindo o cheirinho da polenta que exalava das cozinhas do pessoal do Rio Ex- Patrimônio e atingia em cheio nosso estômago, exatamente no instante em que nos aproximávamos do pé do morro das bananeiras, e sabíamos que era o ponto onde o ônibus começava a apanhar, exigindo uma segundinha. Para driblar a fome, a gente bolava passatempos, e, entre muitos, um dos que me lembro era o de descer do ônibus em movimento e correr em paralelo com o mesmo pela sarjeta da estrada. O ônibus possuía as mangueiras cheias de furos o que facilitava a abertura da porta, e o morro exigia a redução da marcha, facilitando a vida do pessoal que acompanhava-o à pé. A brincadeira ia de vento em popa, até o dia em que, sem que soubéssemos, o motor havia passado pela retífica – o que provocou uma melhora no rendimento. Estávamos fazendo rodízio para que cada um fizesse sua aventura, quando desceu um cara com o ônibus já no topo do morro. Nisso, o motorista engata uma terceira e dispara. O cara só não ficou à pé porque seguramo-lo pelos braços, pendurado do lado de fora.

“O cagaço foi grande – nunca mais essa brincadeira foi repetida”.

 

 

 

 

 

 

 

ÔNIBUS

 

Sair de Siderópolis para estudar em Criciúma sem depender de linha regular de ônibus era um grande privilégio, apesar de muitas e muitas vezes eu e meus colegas termos empurrado o ônibus nas manhãs frias de junho, porque o motor insistia em não pegar. Quantas festas, brigas e puxões de cabelos foram protagonizados, – principalmente pela mulherada – nos três anos de científico. Saudades de espalhar cadernos sobre as poltronas para marcar lugar às amigas. Tristeza ao lembrar que, religiosamente,  tínhamos que passar em frente ao curtume e suportar a morrinha exalada pela decomposição da parte orgânica do couro – nem a inhaca da pirita em combustão chegava perto daquele fedor.  Num belo dia, apareceu um motorista novo, este não muito responsável. Chegou perguntando qual a hora da saída. Falei que estávamos atrasados e que se não acelerasse a situação iria encardir. O cara saiu num pau adoidado e, na descida do morro de Criciúma, uma Rural Willys, que vinha em nossa frente, lançou uma pedra que quebrou o pára-brisa. Eu, que vinha de cicerone na primeira poltrona, levantei-me e socorri uma colega que estava prestes a desmaiar devido ao estampido no ouvido, uma vez que viajava na escadaria colada ao pára-brisa. Olhei para trás e presenciei uma cena hilariante: a mulherada do Colégio Michel com aquelas saias rodadas, tentando baixá-las, uma vez que o vento, teimoso, cismava em mantê-las no teto do ônibus.

“Quase que abandonei o socorro à colega do Marista para apreciar os detalhes da cena”.

 

 

 

 

TRIGONOMETRIA

 

Teorema de Pitágoras e de Tales já estavam no papo, sabíamos de trás pra a frente e de frente pra trás. Equação do segundo grau aplicando a fórmula de Bhaskara, nem se fala, tirávamos de letra. Tudo ia bem até que surgiram as tais de funções trigonométricas. Era um tal se seno, cosseno, tangente, cotangente, secante, cossecante, arco do seno, arco do cosseno e mais um monte de definições jamais vistas e ou imaginadas. Enquanto o papo versava em 0º; 30º; 45º; 60º e 90º tudo bem, estava decorado o seno e cosseno desses ângulos, mas quando a conversa passou para ângulos aleatórios o susto foi grande. Nisto, alguém, querendo demonstrar o conhecimento que não tinha, perguntou:

– Professor, temos que decorar os valores até 360º.

O mestre, que não era muito chegado a puxa-sacos, pediu para que este fosse até a secretaria e pegasse a tábua de logaritmos.

O cara, todo feliz da vida, trouxe-a, entregou-a ao mestre, que, folheando aquele livro, que, após o surgimento das calculadoras eletrônicas, caiu no obsoleto e só é encontrado em sebo, diz:

– Vocês estão vendo este livro? Só tem números. O amigo de vocês quer decorá-lo.

“ Meteu-lhe um pé na bunda que serviu de lição para que ele nunca mais se passasse por bonzão”.

 

 

 

 

 

 

 

 

AMAZÔNIA

 

A aula era  EMC – aos que não lembram, Educação Moral e Cívica. Obviamente, professor para uma cadeira dessas não precisava ter conhecimentos profundos em ciência exatas – bastava seguir o livro texto, ser um grande patriota, concordar com o regime e acreditar na velha e famosa expressão que foi a grande vedete da época: O milagre brasileiro.

O mestre, para sair um pouco da rotina e fugir dos chavões maçantes do livro, de vez em quando, trazia uns recortes de jornais e revistas, os quais eram lidos em sala de aula, interpretados e polemizados. Numa das aulas dedicadas ao estudo de atualidades, foi utilizado um desses recortes, o qual falava sobre a Transamazônica, que hoje a gente chega à conclusão que foi uma verdadeira transa amazônica. O mestre jogava no ar pérolas e mais pérolas, e a turma, na geral, de bate pronto, retrucava em voz baixa a resposta mais adequada para cada caso. Certo dia, a situação transcorreu mais ou menos assim:

– Na Amazônia, o minhocaçu tem aproximadamente 15 metros de comprimento.

– Acho que estão confundindo minhocuçu com sucuri.

Era um tal de ‘na Amazônia isto’, ‘na Amazônia aquilo’, até que saiu esta:

– Na Amazônia, as tartarugas pesam 500 quilos.

Alguém respondeu:

– Esta come chumbo.

O problema foi que a resposta saiu exatamente no momento em que a turma encontrava-se atônita com o caso, portanto o silêncio era fúnebre, e o professor ouviu.

“Todos sabiam que era exagero. Mesmo assim, o infeliz  teve que se explicar na  diretoria do colégio”.

 

ELÉTRONS

 

Primário completo, ginásio em fase de conclusão e uma grande dúvida pairando no ar. O pessoal do científico falava que matemática, português, história, geografia eram moleza, mas a tal de física era um terror. A maioria pensava que o pessoal da velha guarda estava  sacaneando para enrolar a vida dos novatos. Dizer que física era difícil, numa época em que a molecada fazia umas 16 barras, 22 apoios sobre o solo, 60 polichinelos, era de pensar que só podia ser sacanagem. Veio o científico e aí o pessoal caiu na real – estava confundindo física com educação física. Enquanto a segunda não passava daqueles tradicionais exercícios que serviam de aquecimento para um futebolzinho, a primeira estuda os fenômenos físicos. Ao sair do ginásio e encarar Mecânica dos Sólidos com as Leis de Newton, Mecânica dos Fluidos com o Princípio de Pascal, Termologia com o Ciclo de Carnot, Acústica com o Efeito Doppler, Óptica com Espelhos Esféricos de Gaüss e Eletricidade com a Lei de Ohm e Leis de Kirchoff, chegava-se a conclusão que física realmente era ‘de arrepiar’. Como dizia um amigo meu, ‘arrepiava até a solapa da cremalheira’. Após ter estudado a lei dos nós e lei das malhas, um belo dia, encontramos um colega, no cair da tarde, debaixo de um poste, mirando o topo do mesmo com um binóculo. Nisso, alguém lhe perguntou:

– E daí cara, o que estás procurando com este binóculo?

– Psiu, psiu, fique quieto que eu estou tentando ver o movimento dos elétrons.

Ao que o outro respondeu:

“Já que aprendeste a lei de Ohm, por que, na próxima aula, não pedes para o professor ensinar a lei da mulher?”.

One Response to Siderópolis em umas e outras que ouvi, vi, ou vivi

  1. walter filho Responder

    Maio 17, 2019 at 15:24

    Nasci em Lauro Muller em casa e,a poucos metros dos trilhos da estrada de ferro Teresa Cristina . Edson , curti com alegria todas as histórias que você nos presenteia neste Sidera.Muito obrigado, amigo ,a e até mais !

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